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IMAGINAR

Melhor imaginar a vida doce e amarela que salgada com sabor de quero mais
Melhor imaginar a vida simples que composta e cheia de feridas
Melhor imaginar a vida como um sonho passageiro
Como uma flor plantada no campo que um buquê com hora marcada pra murchar
Melhor imaginar a vida assim mesmo
No agora porque o passado já morreu
Melhor imaginar a vida menos séria
Com mais humor e vontade de seguir sempre à frente
Melhor imaginar a vida alegremente mesmo que chorando estiver
Melhor imaginar e disfarçar as lágrimas com sorrisos
Que mascarar a dor e deixá-la envelhecer
Melhor de tudo é imaginar as coisas boas como eternas
Mesmo sabendo que daqui a um segundo tudo pode passar...


Ricardo Lima
Imaginar

IMAGINAR

Melhor imaginar a vida doce e amarela que salgada com sabor de quero mais
Melhor imaginar a vida simples que composta e cheia de feridas
Melhor imaginar a vida como um sonho passageiro
Como uma flor plantada no campo que um buquê com hora marcada pra murchar
Melhor imaginar a vida assim mesmo
No agora porque o passado já morreu
Melhor imaginar a vida menos séria
Com mais humor e vontade de seguir sempre à frente
Melhor imaginar a vida alegremente mesmo que chorando estiver
Melhor imaginar e disfarçar as lágrimas com sorrisos
Que mascarar a dor e deixá-la envelhecer
Melhor de tudo é imaginar as coisas boas como eternas
Mesmo sabendo que daqui a um segundo tudo pode passar...


Ricardo Lima
Imaginar

Eu e Ela

Ela queria tudo

E eu só tinha a mim mesmo para oferecer

Ela achava pouco

Mas esqueceu que o pouco era tudo que eu tinha

Ela me deixou partir

Eu prometi não mais voltar

Seguimos caminhos diferentes

Eu só tinha os meus sonhos

Sei que não eram muitos

Porém o essencial pra eu ser feliz

Ela tinha suas vontades

E sempre queria mais

Ela também tinha sonhos

Mas não acreditava

Achava que não eram suficientes

E não notava que o muito era tão pouco pra viver

Eu quis ir além

E por teimosia consegui chegar

Ela apenas quis estacionar

E ainda hoje está lá

E eu que não queria voltar

Voltei e estou feliz

Ela pode ser feliz também

Espero que seja

Por ela eu fui e voltei

Agradeço por ter me deixado ir

Mas queria que ela também estivesse aqui


Ricardo Lima

Confissão

...Por isso confesso.

   Tenho apenas a lua como testemunha das claras noites em vão, das canções antigas que eu costumo ouvir quando estou triste, e de algumas notas que arrisco tirar no violão. Mesmo sem encontrar sentido, arrisco-me puxar algum assunto bobo, uma figurinha ou algum outro assunto tolo, mas sinto falta daquela sintonia que mesmo sem fazer sentido, me fazia sentir, e eu sentia muito.

   Arrisco alguns esforços para seguir no mesmo caminho, mas no meu céu já não há estrelas, já não é mais tão claro, já não há luar que me apaixone novamente...

   O meu fraco ainda é o chocolate, e não sei quando irei me recuperar. Os sonhos que eu sonhava sozinho, as dores que eu sentia, os raros momentos de lucidez, estes sim me farão falta. Volto a lembrar do chocolate, da lua cheia próximo a escorpião, e dos infernos astrais que me assolam. Sei que eu não deveria confessar assim. Mas dentro das expectativas e dos meios termos que evito usar, vi o quanto a sinceridade é dolorosa.

   As correntes me prenderam muito mais que eu imaginava. O vento, hoje em dia, me traz o perfume teu que eu nunca senti... sinto que talvez eu deveria ter errado mais, me arriscado mais, e me policiado menos. Sei o que pensas a meu respeito, mas já aceitei tais condições absurdas e fico quieto, sozinho aqui no meu canto e nas palavras vazias que hoje me tornaram menos confuso, menos sonhador e mais centrado em mim mesmo.

   O agora pra mim, é um sempre que acaba daqui a dois minutos. O agora pra mim, é o orgasmo que dura só alguns segundos, e satisfaz uma boa noite sono; sem sonhos; sem culpas e sem perdão. O agora é simplesmente o agora, apático e anáfono. Sem fome e como o céu azul totalmente sem nuvens, desnudo o ardendo na pele.

   Por isso confesso...

   E assim meio confuso abro mão dos chocolates, das noites de lua cheia, das constelações do zodíaco e de uma parte generosa de mim mesmo.


Preciso Me Afastar

Se eu me afastar
Será uma tentativa pra tentar te esquecer
Sei que será inútil
Mas não posso continuar assim
Há muito mais amor próprio dentro de mim
Que qualquer outro sentimento
Já tentei muito te odiar
Mas isso eu não consigo fazer
Eu estaria sendo injusto comigo mesmo
E o que tu me fez?

Para mim o teu silêncio é tão ensurdecedor
Que eu já não ouço nem sussurros
Afastar-me é preciso
Mas como me afastar e não ser injusto?
Como eu já havia dito:
"Há muito mais amor próprio em mim
Que outro sentimento"

O teu silêncio me ensurdece
Ele grita dentro de mim
Mas como evitar o charme da tua boca
Que puxa para o lado quando fala ou sorri?

Eu preciso me afastar
Antes que essa desilusão me sufoque
Mate os meus sonhos
Se não pela tentativa de fugir
Que seja pela tentativa de me reencontrar
Acho que assim não serei injusto
E tu entenderias de fato
Preciso mais me preocupar com o que eu sou
Preciso fazer algo para me resguardar
Tu já tens a tua vida
E eu preciso encontrar outra maneira para seguir a minha

"Pode não parecer
Mas eu me importo..."

Ricardo Lima

Ser Escritor

   Ser escritor é se reinventar, se refazer em cada palavra ou texto escrito.
Poder ser um mendigo numa linha do texto, e na outra um magnata do petróleo. Ser um astronauta em algum momento, e por outro um presidente, um tirano ou um ditador. Palavras difíceis enfeitam um texto e ao mesmo tempo dificulta o seu entendimento.
   Ser escritor é muito mais que escrever, é viver os momentos que a imaginação proporciona. Masturbar-se emocionalmente, transgredir o lógico e unir passado, presente e o futuro numa mesma oração.
   Pra ser escritor basta escrever. Palavras não se compra e tampouco estar a venda. Não imploramos as palavras, elas vêm da alma e nos surpreende. Eu não sou escritor apenas por escrever. Sou escriror por que sei sentir e diferenciar as energias que me cercam. Nas minhas histórias, eu posso ser o que eu quiser, e além de escrever, eu sei olhar as estrelas sem culpa-las. Sei amar e odiar, sei chorar sem sorrir, e rio também sem chorar.
   Ser escritor ou poeta, é saber dar cor ao monótono. Encher o vazio que se forma no vácuo, e descrever momentos com fervor.

   Eu sou um escritor que não sabe escrever, ao menos como você deseja. Eu escrevo porque respiro, porque ando, porque enxergo e tenho sede. Não me julgue pela a inocência, o meu pecado foi não saber entender e dar vida a tua incompetência em questionar. Eu defino àqueles que escrevem com apenas uma palavra enquanto muitos tentam parecer ridículo com a sua própria ignorância.
Àqueles que escrevem não são apenas escritores. Os que escrevem, para mim todos são...
AMANTES DAS PALAVRAS.

EU MESMO

Sempre serei eu mesmo
Do amanhecer ao fim do dia
Serei o mesmo até nos sonhos
Na eternidade enquanto dormia

Serei a luz do sol
A cor prata da lua
Passarei entre as estrelas
Passo a passo no meio da rua

Serei a luz dentro dos olhos
O fogo que arde sem agonia
Serei as noites quando tão bela
A lua cheia, a meresia

Eu mesmo sempre direi
O quanto tu és sem importância
Não fareis de mim uma fonte
Eterna das tuas lembranças

Poderei ir aonde quiser
Meus passos dirão o caminho
Não furtarei de mim mesmo
O desejo que me faz tão faminto

Ricardo Lima

Inverso

A morte
Um suicídio
Tanto a viver e orgasmos a sentir
E simplesmente escolhe o fim

A vida
Um sacrifício
Mas nada justifica
Uma saída tão desesperada

A vida um suicídio diário
Cansativa e gratificante
Percebida nos sorrisos desajeitados

A morte
sorte dos covardes
Alusões dos empáfios desavisados

Ricardo Lima

Menina












Menina
O que tu expõe
       além das tuas tatuagens...
Ou na verdade
       O que tu queres esconder...
Serão marcas de um passado
Um coração magoado
O que tens
       Além dos teus olhos descuidados?
Menina
Se eu me tatuar
      será em tua homenagem
Não quero me guardar
       Tampouco resguardar-me de ti
Um dia menina
Que eu olhei tuas dores
Eu pude ver as cores
        e a tristeza no teu sorriso
No dia menina
Em que eu toquei tua luz
Vi que tua pele marcada
Além da tinta haviam lágrimas...


Ricardo Lima

Poesias e poemas

Os seios à mostra
Os pecados exposto na sala
Talvez mais uma lembrança
Talvez outra pessoa


A fome nos olhos
O sexo emanado em formas
As mãos traiçoeiras
O incerto ao orgasmo

Palavras confusas
Descompasso semi-fusa
Notas e enxames
Amostras promiscua


Não serei eu a furtar teu gozo
Tampouco tu verás meu bojo
E nós aqui
simples mortais
Vivenda muito por tão pouco

Ricardo Lima
Poesias&Poemas

Poesia

Sombras...
luzes acesas
flores caídas
Doces sonhos às noites tristonho
Desamparo
funís de areia medida do tempo

Cai à noite imensas alturas
Fontes de água doce cristalina
Doce som
vozes femininas
Madrugada 
amanhecer de cor cinza.


Noite e dia
Sombra água fresca
Delírios
Amantes obra prima
Caminhos e declínios
Sede a boca seca

Beijo na boca
Mel e folha
Segue à fora o que fôra um dia...
Apenas horas
Água fria



Ricardo Lima

Blindagem

Hoje as canções que eu faço já não são pra você
Preciso esquecer antes que o meu mundo desabe
Não preciso disso pra sobreviver
Antes eu me virava sozinho
E sempre vencia as minhas próprias batalhas
E encontrava o meu próprio caminho

Preciso tirar você de mim
Antes que seja tarde
Tenho que esquecer o meu passado antes que tudo recomece
E as águas que passaram retornem às correntezas
Não preciso de mais lembranças
As minhas atitudes já não são tão eficazes
Devo me reencontrar em algum novo caminho
Preciso sobreviver a mim mesmo

Agora não importa
O que você falava já não faz sentido
Estou aprendendo a viver
O teu olhar sobre mim já perdeu a força
Mesmo que o meu coração ainda queime
O tempo me ajudou a blindar o meu peito
E o meu coração já está protegido

Ricardo Lima

Já Não Enumero os Dias

Já não enumero os dias

     As primeiras horas do dia são as mais bonitas apenas para àqueles que não sabem observar o decorrer de cada hora passada. Pois bem, eu consigo ver coloridos onde tu só enxergas cinza e preto. Pessoas que não sabem enxergar, só vêem o que querem que elas vejam.
Quero vê-las fecharem os olhos e descrever o que realmente estão vendo e sentindo. Posso ser “um Vegetal” nada incomum, mas sei o que realmente importa a alma.
     De todos os olhos que eu pude observar, vi naqueles que pouco me revelaram sobre o que eu necessitei para entender. Sobre as coisas que eu não entendi nada pude fazer. Fiquei apenas observando os dias e as horas que passaram até hoje.
Se isso passou, eu não sei dizer. Há aqueles que sempre dão um jeito de não ser completamente esquecido. Mas isso não me importa, tenho objetivos a buscar. As primeiras horas do dia são as mais belas, e para mim nada é tão gratificante do que respirar esse ar da manhã e, sem certeza alguma na vida. Isso é bom que a vida nos guarda dia após dia, e assim segue nas inércias e seus descompassos.
      Às vezes a beleza é relevante, ao menos vejo dessa forma. Não que eu não ame o belo, quem não for atraído pela beleza só deve ser cego ou não enxergar direito. São poucas as chances que eu tenho, por isso, eu tenho que ser bem mais objetivo nas comparações. Apesar de odiar o termo, sinto-me obrigado a me render meio toda essa declaração adversa.
A diferença entre amar e “se ferrar” é apenas figurativa, ambas nos levam ao ridículo mesmo em caminhos tão desiguais. Não menosprezo os termos, nenhum deles. Aliás, não menosprezo nada. Tudo é válido quando se quer chegar, e mesmo sem saber aonde ir devemos caminhar. Não perderemos mais tempo sendo os mesmos inúteis de ontem, vamos buscar e tentar ser o que todos somos... Humanos e perfeitos nas diferenças que temos.
     Um fato sobre a vida: Ela é curta e eterna o bastante. Dura o necessário às vezes... E por outras termina precocemente que pouca a vemos passar. É fato nos dias de hoje. Tudo é banalizado. A violência, guerras, doenças, efeito estufa, corações partidos e amores não correspondidos. E assim contemplo os retratos da humanidade cada vez mais carente de amor próprio e de compreensão do que se passa na própria “telha”.  O ridículo de amar é não ter a certeza do que se estar amando, ou simplesmente se ver nos olhos de outros e se achar dono daquele ser que estar ao lado. Não sei se devo me arriscar por esses campos ou por essas terras alagadiças e muitas vezes sem sentido. Mas, fazer o que. Vivo assim e assim irei firme pelo meu caminho, pisando forte e sendo o mesmo de sempre.


Sobre ela:

     Muitos me perguntam, mas o que devo dizer então...
     Uma vez que, eu nem mesmo sei quem é.


    Apenas uma menina, acho que posso falar assim. Quando iniciei essa caminhada, eu tinha uma visão diferente da que eu tenho agora. Não que eu tenha desviado dos meus objetivos, ainda os tenho bem vivo em minha mente, só que coisas foram chegando e se tornando importantes, e outras ficaram quase que obsoletas. Cheguei a concluir então; que de tudo que eu deveria encontrar pelo caminho, ela foi uma das necessidades necessárias e essencial no meu mundo de faz de contas.
Hoje amanheceu meio nublado “por que será que eu sempre uso essa expressão...” e mais uma vez, com o meu nariz congestionado. Alergias aparte e foco nas estradas por onde passeio... Que fim de semana esse meu.
    Não adianta, eu sempre ficarei preso a isso. Quem sabe um dia eu supere as feridas que me marcam até hoje. Feridas? Poxa! Eu que pensei que nunca iria falar nisso. Mas... Entre as coisas que eu penso e o que faço há uma diferença enorme com as coisas que eu sinto e vejo.
A vejo assim, ela sempre por lá. Sempre olhando distante, e nunca pra mim. Eu acho isso, e não tenho certeza. A menina de olhos grandes e pele macia como avelã sempre presa nos meus sonhos e sempre presente na minha realidade. Se às vezes finjo ou não, não sei dizer. Se às vezes prostituo minha existência com essas coisas que eu ainda não aprendi a evitar. Poxa! Paciência, eu só quero terminar essa minha jornada, essa minha caminhada que já está tão longa que eu já nem sei se um dia chego ao fim, ou mesmo se terá fim. Acho que eu sou meio cultivador e não construtor, porque sempre trabalho e renovo para trabalhar novamente, e assim vou, a passos de formiga plantando as minhas próprias sementes.
     Passei dessa fase de sonhar. Não quero ser lembrado como um louco e sonhador, até que essa primeira opção me atrai bastante. Mas se tudo for apenas isso, então que seja o que for. Pois bem! Será que vocês notaram que eu deixei de enumerar os dias? Acho que não! Há tantas coisas pra vocês se preocuparem, que não devem ter notado uma simples “deixa” tão insignificante. Queria agora começar outro parágrafo, mas achei este tão pequeno que resolvi escrever mais essas duas linhas para completá-lo. Só não sei o que dizer sobre os dias de um cidadão tão parado assim, e às vezes sem pretensão alguma.
     Ela, a menina de olhos grandes. Sim ela, ela vive aqui em mim. Mas que é ela afinal... Será ela uma ilusão? Uma incerteza como todas as outras? Ou será ela simplesmente uma visão insegura do meu próprio horizonte tão distante de mim. Pois bem, eu nunca quis me perder. Acho que por isso que carrego dentro de mim um coração tão infantil e intenso que às vezes chego a duvidar até do seu pulsar sempre inconstante. Ontem choveu novamente, e como de costume, fiquei até tarde escutando o barulho da água que escorria pelo telhado e se chocava no chão. Passei horas ali sentado, e lembrei de uma passagem do Pequeno Príncipe; onde ele dissera que gostava de ver o pôr-do-sol sempre que estava triste.
     Não sei se isso cabe a mim. Não me lembro de quando foi à última vez que eu pude observar um pôr-do-sol, não lembro mesmo! Mas isso não quer dizer que eu não tenha me sentido triste algumas vezes. Essa relação não se aplica a mim. Porém a lua, por sua vez vem a ser uma humilde testemunha das noites mal dormidas que eu sempre me submeti involuntariamente. Acho que sonhar mesmo, para mim, apenas quando acordado. Uma realidade não muito incomum, talvez uma fuga das ilusões, mas quanto a isso, nada posso afirmar.


Diário de um Vegetal 
Ricardo Lima

Triste de Mim

    O vento sopra suave e breve, trazendo consigo o frescor da manhã. Alguns pássaros rompem a calmaria do silêncio entoando suas doces canções. Aves de rapina sobrevoam e planam usando as largas fitas de vento a seu favor, enquanto procuram sua presa timidamente.

   Ao longe, na estrada, alguns roncos de motores se fazem presentes. É possível ouvir o zumbido dos pneus no asfalto já um pouco gasto pelo tempo. Há previsões de chuva, porém os mais velhos não acreditem num bom inverno. As crianças correm pelo terreiro, atravessando a passos largos de uma a outra moradia sem alguma preocupação.

    Que bom é o cheiro que escapa pela cozinha, e logo seduz gentilmente vários paladares sem algum esforço pra isso.

    Triste de mim, que mesmo aqui ainda não esquece as velhas manias. Triste mesmo de mim, que nem longe esquece ou mesmo tenta fingir. Triste de mim, que nem mesmo a vida simples daqui, ainda sim, não me faz repousar.


Ricardo Lima
30 de Dezembro 2015

Uma Tarde de um Feriado do Mês de Dezembro

Veja o meu peito
Sempre o mantive aberto assim
Para que você pudesse chegar a hora que quisesse
Veja os meus olhos
De qualquer forma não chorarei
Mesmo se você quiser partir
Veja as minhas mãos
Sempre vazias assim
Não há nada nelas que não seja de dentro de mim

Veja as minhas lágrimas
Não as mostrarei a mais ninguém
Assim como as minhas feridas
Também não as deixarei assim tão expostas
Veja bem
Olhe nos meus olhos
E não diga nada
Me deixe decifrar os seus pensamentos
Me deixe ver até onde posso te levar comigo
Até onde você seria capaz de caminhar do meu lado

Veja a minha luz
E se não for capaz de vê-la
Talvez se perderá pela escuridão dos meus passos
E se isso acontecer
Feche os olhos e venha as cegas
Mergulhe de cabeça
Assim como eu me atirei nesse precipício perigoso que são os teus olhos
Não me pergunte porquê
E saíba de uma de vez só
Que jamais poderás entender os motivos
E que nos meus braços
É onde encontrarás o calor que necessitas para apagar as chamas que te incendeiam.

Ricardo Lima

A gente sempre acostuma

     Sabe, ainda levo o mesmo olhar. No rosto tenho ainda algumas marcas, tudo que o tempo não apagou. Sabe, algumas porteiras teimam em ficar abertas, algumas lágrimas leva tempo pra secar. Sabe, eu acho que você nunca soube... Não sei porque, mas sempre pensei assim.

    Sabe, o seu tempo nunca foi o meu também, o teu mundo era estranho demais pra que eu entendesse algumas chuvas. Agora, após alguns ventos, eu vejo o quanto eu fui desonesto com partes do meu coração. Sei disso, mas não me arrependo, o meu mundo é muito mais simples que eu imaginava, e as vezes me perguntava se você era capaz de adaptar-se a ele e a mim.

     Sabe, as vezes a minha mente flutua muito, mas a lucidez ainda reina em alguns pequenos momentos do meu dia. Sei que você não entenderia. Aliás, nem mesmo eu entendo alguns dos meus passos. Sabia que o tempo não dita as coisas... Eu sei, o meu passado não é tão presente assim. Sabe, as vezes procuro o teu olhar, e  o vejo em vários rostos. Já acostumei com isso e nem sempre me assusto, mas a saudade que eu sinto, corta bem mais que estilete afiado. Sabe, as lâminas são cortantes, mas não mais que as suas palavras que saíram da sua boca e logo me apedrejou e me deixou com várias marcas espalhadas por toda a minh'alma.

     Sabe, se eu soubesse eu não teria escrito essas palavras. Não que você não as mereça, mas quando ainda não se sabe, a dúvida é uma ótima companhia para os corações solitários.

Ricardo Lima

O Sentido da Vida

   Minha vida era um inferno. Não, não estou sendo exagerado.
Meu nome é José Augusto Silva Motta e tenho 46 anos. Sou morador de ruas. Você deve estar se perguntando os motivos.
Eu costumava ser um jovem feliz. Tinha muitos sonhos, planos... Flertava com as garotas e nunca ficava sem namorada. Até que um dia, encontrei o amor da minha vida. Ana se tornou minha esposa. Nos casamos e tivemos duas lindas filhas gêmeas. Era a família perfeita.
Consegui meu tão sonhado cargo de químico-chefe na empresa em que trabalhava. Estava tudo às mil maravilhas.
   Então veio aquela gravidez. Estávamos tão felizes! Seriam três filhos. Mas foi uma gestação difícil e, no dia do parto, minha Ana não conseguiu. Foi lançada para os obscuros caminhos da morte. Eu a havia perdido. Ficamos só nós. Eu as gêmeas e o recém-nascido. Não sabia se era capaz de segurar a barra que me estava sendo imposta. Levei o bebê para casa e contratei uma babá.
   Um dia, ao sair para trabalhar, a cabeça quente, os olhos inchados e a desilusão me fizeram parar em um bar na esquina. Bebi para esquecer. Foi ótimo! Em pouco tempo, não existiam mais problemas. Cheguei tarde, como se estivesse trabalhando e fui dormir. Não me lembro de ter dado boa noite para meus filhos e nem de contar as histórias preferidas das gêmeas. No outro dia repeti o processo.
Depois de faltar cinco dias seguidos, perdi o emprego. Foi aí que caí em um abismo sem fim.
   Bebendo para esquecer, rapidamente acabei com todas as economias. Comecei a fazer dívidas. Quando o dono do bar que eu costumava frequentar se cansou de me vender bebidas fiado, me expulsou do seu estabelecimento com a promessa de que se voltasse a pôr os pés ali, me encher a cabeça de balas.
Sem coragem para voltar para casa, deixei meus filhos com a babá que não recebia a meses e fugi. Desde aquele dia, perambulo sem rumo pelas ruas.
   Hoje, cinco anos depois, pedindo esmola nas esquinas, consegui algum dinheiro para comprar comida. No caminho do supermercado, parei na porta de um bar com a intenção de comprar uma garrafa de pinga. Não cheguei a pôr os pés lá dentro. Um lampejo de consciência me atingiu e segui em frente.
   Comprei algumas frutas e pão. Então segui rumo ao que chamava de casa. Na verdade era uma marquise, que me protegia da chuva e a qual eu dividia com vários outros  mendigos.
Quase chegando em casa me deparei com uma cena que mudou minha vida completamente.  Eu estava no meio da enorme praça e de lá avistei, na escadaria da igreja, um homem ameaçar  uma mulher com uma arma. Ela, desesperada, segurava o braço do sujeito, com uma força  que só quem se vê em perigo sabe que tem.
   Olhando a cena, decidi que tinha que salvar a vida daquela mulher. Ela não queria morrer. Ela não iria morrer. Com uma astúcia que até então não sabia que possuía, contornei a praça e parei na lateral da escadaria, em um ponto que o agressor não podia me ver. Larguei ali mesmo as sacolas de compras e comecei a subir. Fui rápido e silencioso.
   Parei nos dois últimos degraus e respirei fundo. “É agora” pensei. Com  um pulo, atingi o agressor. Sua vítima, assustada, correu.  Ele tentou se levantar, mas não deixei. Empurrei-o mais uma vez e com o sorriso de vitória no rosto, me preparei para sair dali.
Foi então que meu mundo se tingiu de vermelho. Senti a dor lancinante no meu estômago. Só então, naquele milésimo de segundo, percebi o meu erro. A arma continuava na mão do sujeito. Senti o segundo tiro me atingir no peito.
Meus joelhos fraquejaram.  De repente, vi minha amada esposa com seu sorriso radiante,  segurando nosso filho caçula nos braços. Vi minhas filhas, Yasmim e Emily brincando de pega-pega e sorrindo quando pegavam uma à outra.
   Ana me estendeu a mão. Senti a a paz envolver meus sentidos e todo o sofrimento me abandonou.
Estendi a mão.
Finalmente, minha vida fez sentido...

Luciene Oliveira

Um Alguém

Um alguém que passou?
     Ela toda ali, faceira e inocente, com seu belo sorriso estampado no rosto, com aquela calça jeans meio assim, deslechada. A blusa sempre casual, e requintada. Um dia fora a menina dos meus sonhos, a mais bela, aquela a quem um dia atribuí toda minha inspiração. Eu ali, e ela tão bela, tão perto e tão longe de mim, tão lógico e irreal pelo que imaginava...
     Outros dias, outras vidas, outras horas. Amor quem sabe então... Arrisco as horas que passam em vão. Releitura de um dia, uma noite que a muito tempo se foi, esqueci. Ela ali, tão simples como sempre foi... Passou, perdi o tempo e nada restou. Eu aqui, do mesmo jeito que sempre fui. Mãos vazias, pensamentos cheios, transborda... E ela aqui também, bem presente no meu amanhecer.

     "Não é o tempo que faz as coisas se tornarem importantes. É o valor que atribuímos a elas que as tornam essencial para a nossa vida".
Ricardo Lima

Dia 15 de um mês Qualquer

   Faz sexo todos os dias e sorri sem graça. O que mais faz parte do seus desejos? Por isso eu assim como sou, meio que equilibrado entre as coisas naturais e a loucura. Ando sempre por aqui, abeirando a vida e arranhando as prioridades que sempre invento por aí.
   Me desculpe por ter falado assim tão direto. Sexo é coisa séria, termômetro do amor, fonte inesgotável de prazeres, mas fazer o que se eu te vejo assim? Sempre artificialmente sorrindo e vivendo no mundo de um faz de contas.  Sexo é prazer sim, mas nunca será tudo, não se pode ter bases no simples prazer de gozar. Eu gozo, tu gozas, eles gozam. Eu não estou te ensinado gramática, apenas tentando mostrar que entre o trepar e os poucos segundos de gozo, há um coração sedento de muito mais... Sedento por um abraço sincero, por um beijo lento e demorado, por uma mensagem no fim do dia perguntado "como você está" sem se preocupar com a hora.
   Assim parece ser melhor, mas há sempre um problema que aparece, um sol que brilha e não aquece. Um sol que embrulha, um sol que não diz nada. Na verdade, o hoje nos escraviza. Estamos sempre presos nos prazeres, ou ao o que nos dar prazer.
   Faz sexo sempre, e sorri bastante. Mas rir sem graça, algo falta nos olhos dela. Parecem artificias os seus prazeres. O que te dar prazer então? O meu coração está aqui, aberto feito um livro de romance chato e meloso. Sempre te dei o meu eu por completo, a minha alma, o meu tudo. Dediquei o meu tempo a te contemplar assim mesmo, distante.... Mesmo aqui perdido no meu mundo de ilusões.

   Sexo é banal, é bacana e é essencial pra vida. Sexo é prazer não só do corpo. Sexo também é prazer da alma. Só os loucos gozam de amor e, se masturbam de absurdos. É meio que navegar por mares promíscuos sem prostituir o próprio ego, turvar os olhos de orgasmo, enfiar o dedo ao olho nú.
   Faz sexo e se perde de prazer, e não rí. Dorme sem sono, e se perde na palma da própria mão. Soca o vento, e se veste de brincar de amores. Vive como quem não entende nada, apenas pra ver o tempo passar. E não importa se eu gozar. Se ele gozar, ou mesmo, se ela não faz gozar...
   Assim se faz... gozar sozinho tanto faz... mas se for pra rir... o meu sorriso é bem mais animado.

Ricardo Lima

Sabe...

   Sabe! Um dia a gente cansa, deixa de se importar e não liga mais.
Sabe! Não somos obrigados a dar atenção o tempo todo, tudo tem que ser mais ou menos igual. Sim, eu sei que as coisas as vezes complicam, e algumas possibilidades simplesmente desaparecem. Não acho bom pensar em ti assim, como uma possibilidade e talvez, até mesmo como um acaso ou um erro. E no meio de algumas explicações sempre ficam um subtendido, algo que ninguém pode entender.
   Sabe, a vida é mesmo louca, e sempre nos guarda sentimentos assim, extremos entre o ódio e a razão. Queria mesmo ser e fazer diferente de mim, as vezes não me reconheço ou não me vejo de outra forma, ou mesmo, com outro comportamento.
   Sabe, as vezes acho que eu não sei lutar pelo o que eu quero. Não sei querer simplesmente por querer, e ir aonde eu não deveria ir. Sabe, eu sei de muitas coisas e entendo de tudo um pouco. Sabe, eu não penso mais na vida como uma obrigação, e nem me sinto tão bobo assim. Sei que passei por muitas coisas e até agora sobrevivi. Sabe, sim e sei que você sabe, mas não desmonte o retrato que eu lhe vejo. Sonhar é bom, faz a gente ter coragem de seguir em frente. Não pense que eu te esqueci, até que tentei, mas por pura "ironia" do destino, os ventos sempre sopram a teu favor.
   Gosto de ver as estrelas, sabia? Gosto de imagina-las assim, como lágrimas que enfeitam a escuridão da noite. Hoje já não me importo tanto, agora só quero ser eu mesmo, e dividir o que eu tenho de melhor comigo mesmo.
   Posso parecer egoísta, eu sei. Mas, não sinto mais prazer fazendo o que os outros não fariam por mim. E agora que as canções  já perderam as suas melodias e já não me trazem tantas lembranças, é que eu me refaço diante das dificuldades que me encontraram. Você jamais me verá a reclamar da saudade, pois sempre que recomeço, sempre vejo com bons olhos as dores que senti.
   Sabe, os encontros sempre deveriam ser inesperados, e assim dessa forma, jamais perderiam sabor. Sabe, as coisas nem sempre saem como planejamos, e por muitas vezes sentimos medo. Sabe as noites que passei acordado, foram nelas que escrevi tudo pensando em ti, na intenção de diminuir a dor que sentia. Sabe, na verdade, eu nunca quis esquecer e, talvez essa dor era o que alimentava a minha criatividade.    Nas noites que eu não via as estrelas, eu sempre chorava un pouco; mas não pela saudade que eu sentia, talvez pela dor ou alguma outra coisa que me fazia lembrar.       Não... Não faço distinção entre o que eu vejo e a sensação de sentir. Às vezes, sabe, talvez eu minta.
   Embora a distância me sufoque. Embora a dor da lembrança seja algo que me apego constantemente, eu não sei se mentir é uma saída inteligente.
   Mentir talvez seja uma mania, mas eu como ser humano, jamais serei perfeito.

Ricardo Lima