Conto Urbano I ( fictício )

Ano de 1977, eu já com quinze anos, atrasadíssimo nos estudos ainda cursando a quinta serie. Estudava no Colégio Municipal Padre Luis Palmeiras, na cidade de Simões Bª. Não só eu! Uma "reca" de garotos da mesa idade tentava ali o melhor oferecido pelos pais pauperismos.

Lá eu conheci Cicero. Um garoto que veio do Ceará com pai e mãe para trabalhar na casa do chefe da estação da leste. Garoto difícil de se dar. Tinha estatura mediana, olhos negros e bem vivo, o cabelo era de dar inveja a qualquer espiga de milho colhida fora da época. Roupas bem polidas, pois a mãe tinha um cuidado sem fim com o filho único e o chamava carinhosamente de: Belo. Cicero era calado, tava sempre no mundo da lua, não prestava atenção nos dizeres da professora e quase nunca reuni-se com a turma para uma resenha. Mas mesmo assim chamou a atenção de Aidê. Uma garota a frente de seu tempo, mais conhecida por nota 4 (na época as letras AI representava as notas de 0 a 4), esperta, risonha e que a todos cativava com sua graça e sagacidade. Foi causa da admiração de todos vê-la desfilando com Cicero quadra afora na hora do recreio e passou a ser comum os dois passeando pelos trilhos ao fundo do mercado um lugar bom para namorar.

Isso não demorou muito dias. Aidê passou a falar mal de Cicero para todos os que perguntava e não perguntava. A conversa era sempre a mesma: ele fuma tanta maconha, que beija mais o pinto não reage! Dei o fora nele.
Pronto! Daquele momento em diante a vida do garoto transformou-se em um inferno. De Cicero Belo passou a ser chamado de: "Belo do pinto mole". Ele não tinha paz e a turma não perdoava. Não teve outro jeito. A mãe foi avisada, e apareceu no colégio queijosa.

Passados de 15 a vinte dias ele apareceu na portaria do colégio. Cabelo cortado baixo, vestido em uma bermuda feita de uma calça USTOP, e uma "capanga" feita com as pernas da calça, era moda na época! Um estilo Hip. Estava mudado. Risonho e falante. La estava belo, nem ligando para os poucos que ainda insistia a chama-lo de pinto mole. Não demorou muito apareceu Aidê e uma turma de amigas. Mais espanto ele se aproximou a beijou no rosto e conversaram por mais de meia hora. Assim falou uma amiga comum que ele disse estar mudado, parou com a maconha e queria uma chance com ela.

A diretora Catariana, uma mulher austera, esposa de um tenente do exercito não era de brincadeira. Reuniu todos os alunos na quadra e o aviso foi único. Estava proibido o termo pinto mole nos arredores do colégio, quem desobedecesse estaria expulso automaticamente. Mas já era tarde. Na praça, no mercado, na lanchonete do cabeça onde todos se reuniam a conversa era sempre a mesma, já não só os alunos o tratava assim,mas também muitos adultos das redondezas. E o garoto desapareceu do colégio.

Foi uma das cenas mais linda já vista por ali. Saíram os dois, passaram frente a prefeitura, desceram a rua do mercado e seguira de mão dadas pelos trilhos que seguia em direção da casa grande da estação. Foi a ultima vez que se teve noticia de Cicero belo.

O corpo de Aidê foi encontrado dois dias depois na Bª 093 uma ligação entre a BR324 e a BR101. Uma grande perfuração no crânio feita por uma pedra encontrada junto ao corpo e uma pagina de caderno amassada com letras grande dizia assim: Continuo Belo, pena que você não soube me amar.

Hugo Sacramento

Nenhum comentário:

Postar um comentário