Inocência



Capítulo um: Lembrança ruim


Julho de 2010




Meus olhos se certificaram, o professor estava certo. Como eu não percebi que as horas passaram tão rápido? Surpresa, eu me levantei da carteira. Era nove e meia da noite e minha aula de hardware tinha chegado ao fim.
Catorze alunos e eu era a única mulher da turma. Recebia mais atenção do que desejava, se eu estava ali é porque queria estar ali. Uma característica forte em mim é que sou decidida. Gostava daquela área da informática.
Tinha feito uma prova final, eletrônica básica, um módulo que muitos julgavam não ser para a mulher. Ri internamente quando um homem da turma jogou em cima da minha carteira as respostas junto com os cálculos das questões da prova, mas eu já á tinha terminado.
Não gostava de ser tratada daquele jeito. Gostava de pôr a mão na massa e ter os resultados produzidos por mim. Coloquei meu material de lado e marchei para fora da sala.
Já fora da instituição estranhei o fato de o trânsito está se movimentando com muitos carros e pouquíssimos ônibus. As paradas lotadas. Lembrei-me da ameaça de greve por parte dos motoristas e cobradores da cidade de Fortaleza.
Cheguei a uma das paradas implantadas em frente a um dos Shoppings mais frequentados da cidade. Estava na Avenida Bezerra de Menezes, pensando em ir para casa a pé – não era tão longe -, mas achando tarde demais para tal ato.
Suspirei. Peguei meu celular não vendo alternativa a não ser perturbar minha querida mãe. Ela teria que vim me buscar ou só Deus sabia quando chegaria em casa já que nenhuma linha que me levava para casa estava funcionando. Até porque teria que passar pelo o terminal do Antônio Bezerra e o mesmo estava fechado.
O toque se propagou por duas vezes antes que ela atendesse.
- Luana, o que aconteceu? Onde você está?
Minha mãe soou preocupada, muito preocupada. Ela sempre foi super protetora como qualquer outra mãe, porém, a dona Carine era demais.
- Nada mãe! Não aconteceu nada. Só os motoristas que decidiram entrar em greve hoje. Não tenho como voltar para casa.
Ela suspirou aliviada do outro lado.
- Ok. Querida, onde você está?
- Em frente ao North Shopping.
- Ótimo. Fique onde está. Chegarei o mais rápido que puder.
A ligação caiu, respirei fundo, chateada, por ter que esperar longos minutos, mas era melhor que do que esperar até a paralisação acabar.
Sentei em um dos bancos e cruzei as pernas, coloquei os fones, aumentei o volume me desligando do mundo. A música Besos Faciles soou, gosto das músicas da banda Sonhora.
Um fato sobre mim: eu sempre deixo o reprodutor do meu celular no repete. Mudei de música algumas vezes depois voltando para a mesma música.
Meu pensamento meditava na letra da música quando alguém toucou meu ombro. Virei um pouco assustada, mas era só minha mãe.
- Vamos?
Assenti me levantando. Minha mãe me guiou até o carro. Mamãe era uma mulher de estatura média, 160 no máximo. Alto é meu pai e felizmente eu tinha puxado a sua altura. 1,75 aos quinze anos. É de causar inveja em quase toda garota.
Já minha irmã, Cassiana, não teve tanta sorte quanto eu. Ela é mais velha já com seus 18 anos. Cassiana não era tão alta quanto eu, tendo mais ou menos 1,65. As pessoas sempre achavam que eu era mais velha.
Nossos pais se conheceram em um supermercado. Minha mãe era atendente de caixa e por uma grande coincidência eles moravam na mesma rua. Foi o início de uma grande relação e somos os frutos dela.
Beirava as dez da noite e as ruas já estavam se esvaziando. Minha mãe andava tensa nos últimos dias mais do que normalmente, era época da copa do mundo, julho. Dona Carine sempre pirava em épocas comemorativas como aquela.
Ela argumentava dizendo que tinha medo que algo acontecesse, sequestro relâmpago por exemplo. Mais eu ficava me perguntando o que um sequestrador levaria da minha família. Não éramos ricos ao ponto de conseguirem um bom resgate.
Na maior parte do tempo eu e ela tínhamos um bom relacionamento. Não era um relacionamento perfeito, claro. Sempre com seus altos e baixos como qualquer outro, mas ainda assim éramos inseparáveis. Eu a amava.
O rádio estava ligado tocava uma música careta de muitos anos atrás. Eu sempre me perguntei se as estações de rádios ganhavam audiência com aquilo.
- Mãe, eu posso colocar um CD?
- Claro querida, mas nada de rock pesado com todos aqueles gritos e solo de guitarra que ainda te deixarão surda!
- Qual o problema? O que tem contra minhas músicas? Eu gosto assim como a senhora também tem seu gosto que com certeza não acho nada agradável.
- O que há de errado com A Garota de Ipanema? MPB é o máximo.
Ela sorriu enquanto lançou a cabeça para trás.
- Nada! Meu gosto musical é bem variado. NX Zero, Fresno, Strike, Pitty... Caramba essas pessoas são filosofas já escutou a música mascaras da Pitty?
- Já ouvi você cantar!
Ri achando graça. Com certeza não era a mesma coisa, com toda a certeza do mundo. Baixei um pouco tirando o cinto de segurança. Abri o porta-luvas procurando meus CD’s.
- Meus CD’s não estão aqui. – Reclamei.
- Cassiana deve ter tirado.
- Ótimo e agora? – Voltei a olhar para dentro do recipiente – Olha! Achei um.
Minha mãe olhou de relance lendo o nome da capa.
- Hum... Evanescence.... Essa não é uma banda de rock internacional?
- Sim. Não se preocupe. O rock não é tão pesado assim.
- Nada de gritos e solo de guitarra ensurdecedor?
- Nada!
Coloquei o CD e esperei a leitura. Passei algumas músicas até chegar a minha preferida: Bring Me To Life. Balancei a cabeça ao som do toque.
Meus lábios se moviam acompanhando a cantora de forma silenciosa, eu não tinha colocado meu cinto. Minha mãe sorria um pouco ao me ver daquele jeito e um pouco da tensão se foi.
Estávamos em uma rua deserta e um pouco escura. Minha mãe freou bruscamente fazendo minha testa bater no painel em minha frente. Levei uma das mãos à cabeça antes de perceber o que tinha acontecido. Outro carro tinha bloqueado nossa saída.
Rapidamente mamãe deu a ré na intenção de tomar outra rua, mas outro carro também bloqueou nossa passagem.
- Droga! Eles nos acharam.
- O que está acontecendo mãe?
Meu coração estava acelerado, eu, completamente desesperada e atônica. Minha mãe me olhou, seus olhos rasos de lágrimas. Senti meu estômago formigar e uma sensação gelada me tomou.
- Eu te amo Luana. Não importa o que aconteça, saiba que eu e seu pai tentamos te proteger de todas as formas, mas ainda espero que saiamos vivas daqui.
De repente não senti mais o chão por causa do medo, desespero e a desorientação. A sensação de frio se intensificou e meu coração apertado batia forte podendo ser sentido em meus ouvidos.
Homens apareceram no vidro e apontaram armas, mandaram minha mãe descer do carro junto comigo. Nós obedecemos. Saímos do carro com as mãos erguidas.
- É difícil rastrear vocês, mas não impossível.
O lugar escuro não deixava que visse os rostos dos dois homens, mas minha mãe parecia conhecê-los. Ergui o olhar e vi que as lâmpadas dos postes tinham sido estouradas.
- Impossível! Essa era a intenção.
- O chefe vai gostar quando souber que encontramos o receptáculo jovem. O pai dela está velho demais.
- Ainda não colocaram as mãos podres sobre ela. Só a pegarão por cima do meu cadáver.
O homem riu, ele era maldade pura.
- Isso pode ser facilmente resolvido.
Então o homem que estava tendo aquele diálogo apontou a arma para nós. Minha mãe baixou uma de suas mãos e segurou uma das minhas que já estavam baixas, feito que aconteceu por causa do desespero e medo. Senti seu aperto quase como uma despedida.
- Fuja! – Ela sussurrou – Ele vai atirar em mim. Fuja assim que ele fizer isso. Espero que Michael chegue antes que eles a pegue. Eu te amo.
Eu não tive tempo de responder o som do primeiro tiro quase me deixou surda. Minha mãe se curvou e caiu de joelhos.
- Não, não, não, não! Por favor, não faça isso! – Implorei – Não a mate.
- Fuja! – Minha mãe ordenou com dificuldades.
Meu rosto estava molhado por lágrimas, não conseguia as controlar. Mal percebi quando elas começaram a cair. Tudo acontecia rápido demais, minha mãe estava em meus braços sangrando e morrendo, mas se a levasse rápido a um hospital talvez ela sobrevivesse.
- Por favor! – Gritei desesperada.
Mais minha suplica não causou efeito, o homem continuou andando em nossa direção com a arma ainda apontada.
“Você não pode simplesmente me deixar. Respire através de mim, me faça real. Traga-me para a vida”.
Era o trecho da música que vinha do carro, tão longe que parecia se passar em outro lugar. O trecho se adequava perfeitamente ao momento.
- Eu sinto muito garota. Ordens são ordens.
Minha mãe tossiu.
- Vá!
- Eu te amo! – Falei.
Com relutância larguei seu corpo ainda ouvindo a música vinda do carro. Não demorou até poder ouvir mais três tiros. Lutando contra os soluços consecutivos, pulei sobre o capô do segundo carro e deslizei para o outro lado caindo de pé.
Sem perca de tempo continuei correndo lutando contra as lágrimas que deixavam minha visão turva. Eu ainda não tinha entendido bem o que tinha acabado de acontecer mais tudo o que vinha em minha mente era o fato de que minha mãe estava morta.
Queria gritar, mas sabia que não adiantaria, não havia ninguém por perto. Meu coração pulava forte, podia ouvi-lo com nitidez em meus ouvidos. A adrenalina em meu sangue, a respiração já ofegante demonstrava o início do meu cansaço. Nunca fui muito de praticar exercícios.
Outro tiro se fez ouvir, esse acertou minha perna. Gritei de dor parando imediatamente, o meu sangue imediatamente encharcou o meu jeans. Voltei a correr com dificuldade, com muita dor na perna.
- Não atire! – Pude ouvir o homem – A queremos viva.
Caí exausta, não adiantava fugir. Eles estavam mais perto do que imaginava. Apertei os olhos e esperei que eles me pegassem, mas algo me fez abri-los novamente. Um som estranho. Como se um pássaro gigante estivesse se aproximando.
Tudo aconteceu rápido demais. Só consegui ver quando algo ou alguém arrancou os dois homens da superfície terrestre, pisquei algumas vezes mais estava escuro demais, no entanto, eu tive a certeza de ter visto um homem com enormes asas brancas agarrá-los pelo o colarinho da blusa e continuar o voou para o mais alto céu até estarem perdidos em meio as nuvens escuras da noite.
Levantei com a respiração entrecortada. Assustada com tudo aquilo, com medo, pavor. Não conseguia organizar meus pensamentos. Sentia-me tonta e tudo o que eu queria era acordar e vê que tudo não passava de um sonho ruim. Veria minha mãe viva brigando comigo por passar tempo demais lendo, escrevendo, assistindo aos filmes, series e principalmente no computador.
Em um impulso corri até onde minha mãe estava caída sem vida. Ajoelhei-me perto do seu corpo e o puxei para junto ao meu, não conseguia controlar as lágrimas que molhavam até mesmo o rosto da minha mãe.
E então ouvi que algo cortava o ar com muita velocidade, produzia um ruído atormentador e antes mesmo que eu pudesse pensar no que poderia ser os corpos dos homens que mataram minha mãe, caíram a alguns metros.
Não havia prédios por perto e era quase como se eles tivessem sido largados pelo o ser que os levou para o alto.

A polícia não conseguiu explicar como aqueles corpos caíram de uma altura tão grande e nem o porquê de aqueles mesmo homens quererem acima de tudo me levar ao encontro de alguém que ao menos parecia existir.

Porque a inocência é uma linha tênue entre a vida e a morte.


Meena Swan

4 comentários:

  1. Aaaiii caramba q prefeito 😍😍😍😍 continuaaaaaaaa ♡♡♡♡

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. Esse é um projeto que tenho há muito tempo. Venho escrevendo esse livro desde o terceiro ano... Depois minha vida mudou. Ainda escrevo essa história só que com menos frequência. Tenho alguns capítulos escritos... Vai dar certo.
      kkkkk
      Obrigada!
      Postarei o próximo em breve.

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  2. POIS VOLTE A POSTAR LOGO
    ADOREI SUA HISTORIA
    E LANÇA LOGO ESSE LIVRO
    JA VIREI TEU FÃ M. SWAN

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