Triste de Mim

    O vento sopra suave e breve, trazendo consigo o frescor da manhã. Alguns pássaros rompem a calmaria do silêncio entoando suas doces canções. Aves de rapina sobrevoam e planam usando as largas fitas de vento a seu favor, enquanto procuram sua presa timidamente.

   Ao longe, na estrada, alguns roncos de motores se fazem presentes. É possível ouvir o zumbido dos pneus no asfalto já um pouco gasto pelo tempo. Há previsões de chuva, porém os mais velhos não acreditem num bom inverno. As crianças correm pelo terreiro, atravessando a passos largos de uma a outra moradia sem alguma preocupação.

    Que bom é o cheiro que escapa pela cozinha, e logo seduz gentilmente vários paladares sem algum esforço pra isso.

    Triste de mim, que mesmo aqui ainda não esquece as velhas manias. Triste mesmo de mim, que nem longe esquece ou mesmo tenta fingir. Triste de mim, que nem mesmo a vida simples daqui, ainda sim, não me faz repousar.


Ricardo Lima
30 de Dezembro 2015

Sempre me ofereça o teu corpo

   Hoje me ofereceram um cigarro. Um trago apenas. Eu não aceitei. Ontem me ofereceram Whisky. Uma dose apenas, e novamente recusei. 
   Depois, ofereci as minhas mãos, e como sempre vazias. Ressaltei que pouco a pouco elas iriam contornar todo o seu corpo... Bem devagar e sem pressa.
   Minha boca percorreria toda a sua extensão, passaria pelos teus seios, e por lá, permaneceria um considerável tempo rodeando os teus mamilos que facilmente ficarão enrijecidos. E assim, bem devagar desceria pela tua barriga, e com a língua brincarei um pouco no teu umbigo. E enquanto tu te contorce de prazer, eu chegaria bem no ponto onde eu queria e desejava... E no teu sexo brincaria até te fazer explodir e, contorcer-se feito uma jiboia quando abraça a sua inocente presa.

   "Sempre me ofereça o teu corpo. E assim farei coisas que tu jamais imaginou um dia..."

Ricardo Lima
Sociedade dos Poetas |Vivos

Uma Tarde de um Feriado do Mês de Dezembro

Veja o meu peito
Sempre o mantive aberto assim
Para que você pudesse chegar a hora que quisesse
Veja os meus olhos
De qualquer forma não chorarei
Mesmo se você quiser partir
Veja as minhas mãos
Sempre vazias assim
Não há nada nelas que não seja de dentro de mim

Veja as minhas lágrimas
Não as mostrarei a mais ninguém
Assim como as minhas feridas
Também não as deixarei assim tão expostas
Veja bem
Olhe nos meus olhos
E não diga nada
Me deixe decifrar os seus pensamentos
Me deixe ver até onde posso te levar comigo
Até onde você seria capaz de caminhar do meu lado

Veja a minha luz
E se não for capaz de vê-la
Talvez se perderá pela escuridão dos meus passos
E se isso acontecer
Feche os olhos e venha as cegas
Mergulhe de cabeça
Assim como eu me atirei nesse precipício perigoso que são os teus olhos
Não me pergunte porquê
E saíba de uma de vez só
Que jamais poderás entender os motivos
E que nos meus braços
É onde encontrarás o calor que necessitas para apagar as chamas que te incendeiam.

Ricardo Lima

A gente sempre acostuma

     Sabe, ainda levo o mesmo olhar. No rosto tenho ainda algumas marcas, tudo que o tempo não apagou. Sabe, algumas porteiras teimam em ficar abertas, algumas lágrimas leva tempo pra secar. Sabe, eu acho que você nunca soube... Não sei porque, mas sempre pensei assim.

    Sabe, o seu tempo nunca foi o meu também, o teu mundo era estranho demais pra que eu entendesse algumas chuvas. Agora, após alguns ventos, eu vejo o quanto eu fui desonesto com partes do meu coração. Sei disso, mas não me arrependo, o meu mundo é muito mais simples que eu imaginava, e as vezes me perguntava se você era capaz de adaptar-se a ele e a mim.

     Sabe, as vezes a minha mente flutua muito, mas a lucidez ainda reina em alguns pequenos momentos do meu dia. Sei que você não entenderia. Aliás, nem mesmo eu entendo alguns dos meus passos. Sabia que o tempo não dita as coisas... Eu sei, o meu passado não é tão presente assim. Sabe, as vezes procuro o teu olhar, e  o vejo em vários rostos. Já acostumei com isso e nem sempre me assusto, mas a saudade que eu sinto, corta bem mais que estilete afiado. Sabe, as lâminas são cortantes, mas não mais que as suas palavras que saíram da sua boca e logo me apedrejou e me deixou com várias marcas espalhadas por toda a minh'alma.

     Sabe, se eu soubesse eu não teria escrito essas palavras. Não que você não as mereça, mas quando ainda não se sabe, a dúvida é uma ótima companhia para os corações solitários.

Ricardo Lima

O Sentido da Vida

   Minha vida era um inferno. Não, não estou sendo exagerado.
Meu nome é José Augusto Silva Motta e tenho 46 anos. Sou morador de ruas. Você deve estar se perguntando os motivos.
Eu costumava ser um jovem feliz. Tinha muitos sonhos, planos... Flertava com as garotas e nunca ficava sem namorada. Até que um dia, encontrei o amor da minha vida. Ana se tornou minha esposa. Nos casamos e tivemos duas lindas filhas gêmeas. Era a família perfeita.
Consegui meu tão sonhado cargo de químico-chefe na empresa em que trabalhava. Estava tudo às mil maravilhas.
   Então veio aquela gravidez. Estávamos tão felizes! Seriam três filhos. Mas foi uma gestação difícil e, no dia do parto, minha Ana não conseguiu. Foi lançada para os obscuros caminhos da morte. Eu a havia perdido. Ficamos só nós. Eu as gêmeas e o recém-nascido. Não sabia se era capaz de segurar a barra que me estava sendo imposta. Levei o bebê para casa e contratei uma babá.
   Um dia, ao sair para trabalhar, a cabeça quente, os olhos inchados e a desilusão me fizeram parar em um bar na esquina. Bebi para esquecer. Foi ótimo! Em pouco tempo, não existiam mais problemas. Cheguei tarde, como se estivesse trabalhando e fui dormir. Não me lembro de ter dado boa noite para meus filhos e nem de contar as histórias preferidas das gêmeas. No outro dia repeti o processo.
Depois de faltar cinco dias seguidos, perdi o emprego. Foi aí que caí em um abismo sem fim.
   Bebendo para esquecer, rapidamente acabei com todas as economias. Comecei a fazer dívidas. Quando o dono do bar que eu costumava frequentar se cansou de me vender bebidas fiado, me expulsou do seu estabelecimento com a promessa de que se voltasse a pôr os pés ali, me encher a cabeça de balas.
Sem coragem para voltar para casa, deixei meus filhos com a babá que não recebia a meses e fugi. Desde aquele dia, perambulo sem rumo pelas ruas.
   Hoje, cinco anos depois, pedindo esmola nas esquinas, consegui algum dinheiro para comprar comida. No caminho do supermercado, parei na porta de um bar com a intenção de comprar uma garrafa de pinga. Não cheguei a pôr os pés lá dentro. Um lampejo de consciência me atingiu e segui em frente.
   Comprei algumas frutas e pão. Então segui rumo ao que chamava de casa. Na verdade era uma marquise, que me protegia da chuva e a qual eu dividia com vários outros  mendigos.
Quase chegando em casa me deparei com uma cena que mudou minha vida completamente.  Eu estava no meio da enorme praça e de lá avistei, na escadaria da igreja, um homem ameaçar  uma mulher com uma arma. Ela, desesperada, segurava o braço do sujeito, com uma força  que só quem se vê em perigo sabe que tem.
   Olhando a cena, decidi que tinha que salvar a vida daquela mulher. Ela não queria morrer. Ela não iria morrer. Com uma astúcia que até então não sabia que possuía, contornei a praça e parei na lateral da escadaria, em um ponto que o agressor não podia me ver. Larguei ali mesmo as sacolas de compras e comecei a subir. Fui rápido e silencioso.
   Parei nos dois últimos degraus e respirei fundo. “É agora” pensei. Com  um pulo, atingi o agressor. Sua vítima, assustada, correu.  Ele tentou se levantar, mas não deixei. Empurrei-o mais uma vez e com o sorriso de vitória no rosto, me preparei para sair dali.
Foi então que meu mundo se tingiu de vermelho. Senti a dor lancinante no meu estômago. Só então, naquele milésimo de segundo, percebi o meu erro. A arma continuava na mão do sujeito. Senti o segundo tiro me atingir no peito.
Meus joelhos fraquejaram.  De repente, vi minha amada esposa com seu sorriso radiante,  segurando nosso filho caçula nos braços. Vi minhas filhas, Yasmim e Emily brincando de pega-pega e sorrindo quando pegavam uma à outra.
   Ana me estendeu a mão. Senti a a paz envolver meus sentidos e todo o sofrimento me abandonou.
Estendi a mão.
Finalmente, minha vida fez sentido...

Luciene Oliveira