O Sentido da Vida

   Minha vida era um inferno. Não, não estou sendo exagerado.
Meu nome é José Augusto Silva Motta e tenho 46 anos. Sou morador de ruas. Você deve estar se perguntando os motivos.
Eu costumava ser um jovem feliz. Tinha muitos sonhos, planos... Flertava com as garotas e nunca ficava sem namorada. Até que um dia, encontrei o amor da minha vida. Ana se tornou minha esposa. Nos casamos e tivemos duas lindas filhas gêmeas. Era a família perfeita.
Consegui meu tão sonhado cargo de químico-chefe na empresa em que trabalhava. Estava tudo às mil maravilhas.
   Então veio aquela gravidez. Estávamos tão felizes! Seriam três filhos. Mas foi uma gestação difícil e, no dia do parto, minha Ana não conseguiu. Foi lançada para os obscuros caminhos da morte. Eu a havia perdido. Ficamos só nós. Eu as gêmeas e o recém-nascido. Não sabia se era capaz de segurar a barra que me estava sendo imposta. Levei o bebê para casa e contratei uma babá.
   Um dia, ao sair para trabalhar, a cabeça quente, os olhos inchados e a desilusão me fizeram parar em um bar na esquina. Bebi para esquecer. Foi ótimo! Em pouco tempo, não existiam mais problemas. Cheguei tarde, como se estivesse trabalhando e fui dormir. Não me lembro de ter dado boa noite para meus filhos e nem de contar as histórias preferidas das gêmeas. No outro dia repeti o processo.
Depois de faltar cinco dias seguidos, perdi o emprego. Foi aí que caí em um abismo sem fim.
   Bebendo para esquecer, rapidamente acabei com todas as economias. Comecei a fazer dívidas. Quando o dono do bar que eu costumava frequentar se cansou de me vender bebidas fiado, me expulsou do seu estabelecimento com a promessa de que se voltasse a pôr os pés ali, me encher a cabeça de balas.
Sem coragem para voltar para casa, deixei meus filhos com a babá que não recebia a meses e fugi. Desde aquele dia, perambulo sem rumo pelas ruas.
   Hoje, cinco anos depois, pedindo esmola nas esquinas, consegui algum dinheiro para comprar comida. No caminho do supermercado, parei na porta de um bar com a intenção de comprar uma garrafa de pinga. Não cheguei a pôr os pés lá dentro. Um lampejo de consciência me atingiu e segui em frente.
   Comprei algumas frutas e pão. Então segui rumo ao que chamava de casa. Na verdade era uma marquise, que me protegia da chuva e a qual eu dividia com vários outros  mendigos.
Quase chegando em casa me deparei com uma cena que mudou minha vida completamente.  Eu estava no meio da enorme praça e de lá avistei, na escadaria da igreja, um homem ameaçar  uma mulher com uma arma. Ela, desesperada, segurava o braço do sujeito, com uma força  que só quem se vê em perigo sabe que tem.
   Olhando a cena, decidi que tinha que salvar a vida daquela mulher. Ela não queria morrer. Ela não iria morrer. Com uma astúcia que até então não sabia que possuía, contornei a praça e parei na lateral da escadaria, em um ponto que o agressor não podia me ver. Larguei ali mesmo as sacolas de compras e comecei a subir. Fui rápido e silencioso.
   Parei nos dois últimos degraus e respirei fundo. “É agora” pensei. Com  um pulo, atingi o agressor. Sua vítima, assustada, correu.  Ele tentou se levantar, mas não deixei. Empurrei-o mais uma vez e com o sorriso de vitória no rosto, me preparei para sair dali.
Foi então que meu mundo se tingiu de vermelho. Senti a dor lancinante no meu estômago. Só então, naquele milésimo de segundo, percebi o meu erro. A arma continuava na mão do sujeito. Senti o segundo tiro me atingir no peito.
Meus joelhos fraquejaram.  De repente, vi minha amada esposa com seu sorriso radiante,  segurando nosso filho caçula nos braços. Vi minhas filhas, Yasmim e Emily brincando de pega-pega e sorrindo quando pegavam uma à outra.
   Ana me estendeu a mão. Senti a a paz envolver meus sentidos e todo o sofrimento me abandonou.
Estendi a mão.
Finalmente, minha vida fez sentido...

Luciene Oliveira

Um comentário:

  1. garotinha...historia bem atual
    uma ajuda vindo de onde a gente menos espera, um drama pra nossa sociedade
    a violencia já me assusta

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