Luna havia acabado de se mudar para aquela casa com sua mãe, Elizabeth. As duas tinham uma relação muito próxima; Mais que mãe e filha, eram amigas. Luna tinha apenas quatorze anos, mas era aquele tipo de garota madura demais para a idade. Seus pais haviam se separado há cerca de um ano, e ela lidava bem com isso.
As duas levaram o dia inteiro para colocar as coisas no lugar. Não era muito, e haviam apenas colocado o mais importante, afinal, elas podiam sobreviver um dia sem o armário, mas não sem uma cama. Elizabeth mandou Luna descer no porão, para ver se havia coisas dos antigos moradores para serem jogadas fora, e a garota rápidamente foi para lá. Assim que abriu a portinha que levava ao porão, um vento gelado, diferente e inquietante a atingiu, arrepiando sua espinha, mas levou apenas alguns segundos para a garota afastar o espanto. A menina tentou acender a luz, mas estava sem lâmpada.
- Algum problema, filha? - Elizabeth disse, atrás de Luna.
A garota deu um curto grito, assustando-se com a aparição repentina da mãe.
- Que susto! Não, não.. Está tudo bem. - Luna diz para a mãe, ainda assustada. - Mas preciso de uma lanterna, mamãe.
A mãe de Luna sorriu.
- Certo, e perdão. Já volto com a lanterna.
Assim que a mulher partiu, Luna voltou a observar o porão. Estava bem escuro lá, já que não havia janelas para o lugar. Luna ouve a mãe se aproximar, então se vira, observando o corredor.
- Aqui está. - diz Elizabeth. - Cuidado e não fique muito tempo lá.
Com isso a mãe de Luna sai, deixando a garota lá. Luna observa novamente o porão pelo lado de fora, então entra, enquanto liga a lanterna.
A primeira coisa que a garota observou foi a estante empoeirada e vazia que estava ali. Havia também outras coisas, como; caixas com coisas variadas, eletrodomésticos quebrados e até mesmo uma casinha de cachorro. Mas o que chamou a atenção de Luna foi uma boneca de pano. A primeira vista a boneca era simples, como todas as outras. Mas quando ela a pegou, se surpreendeu. A boneca era realmente como todas as outras: Olhos de botão negro, sem nariz, orelhas mal feitas, braços moles e mãos sem dedos, com um vestido sujo com algo que parecia barro, de um marrom escuro, como sangue pisado e velho. Mas o que chamou a atenção da menina foi a boca da boneca; Os detalhes eram impressionantes. Os lábios vermelhos, pareciam carnudos, com um tom frio no sorriso, dentes certinhos e brancos. Luna decidiu ficar com o brinquedo, levando-a para cima, fora do esquecimento daquele porão.
Assim que a garota sai do porão, com a boneca na mão, ela se depara com sua mãe a encarando.
- E então? Tinha alguma coisa lá? - Elizabeth pergunta. Nas mãos um folheto de pizzaria.
A menina da de ombros.
- Só alguns lixos. E achei isso. - Luna diz, esticando a mão com a boneca.
Elizabeth olha para a boneca, e então a pega.
- Ela é linda. Vou lavar para você. - A mãe diz.
- Não precisa, ela não parece estar tão suja. Fora que, tem coisas mais importantes, mãe.
- Certo. Você tem razão. - Elizabeth diz, sorrindo. Ela estica a mão e devolve a boneca para a filha. - Vai para a sala. Hoje vou pedir uma pizza enquanto organizo algumas coisas no quarto.
Luna concordou, pegou a boneca e foi para a sala.
Os sofás ainda estavam fora do lugar, mas ao menos dava para sentar. A garota sentou-se, e então começou a mecher no brinquedo. A boneca de pano tinha algo que a intrigava. Ela era muito simples para tantos detalhes. Mas decidiu que não pensaria nisso. A menina largou a boneca de lado e pegou o celular, onde ficou mechendo até sua mãe a chamar.
- Luna, vem cá. - Elizabeth gritou.
A menina largou o celular e a boneca no sofá, e correu até o quarto.
Assim que ela entrou, viu sua mãe sorrindo, e um pouco soada.
- Nossa cama já está montada. Já temos onde dormir. - A mãe de Luna diz, apontando para a cama de casal dela e para a cama da filha. - Está com fome, filha?
- Muita. - A menina responde, andando pelo quarto, e observando o trabalho da mãe. - Pede a pizza logo, mãe!
A mulher pegou o celular e um panfleto de pizzaria, e então ligou. Elizabeth não precisava nem se quer perguntar o que a filha queria, pois o pedido era sempre o mesmo, atum com queijo. Cerca de meia hora depois de pedirem a pizza, o entregador chegou. As duas atacaram a pizza, Elizabeth comendo três pedaços, e Luna dois.
- Hora de dormir, Luna. Amanhã será um longo dia para nós duas. - A mãe da garota disse.
Luna até pensou em protestar, mas estava cansada demais. Ela pegou a boneca no sofá, e foi para o quarto enquanto sua mãe apagava as luzes.
Assim que Luna deitou, sua mãe entrou no quarto, e a cobriu com um edredom. A noite não estava tão fria, mas também não estava calor. As duas trocaram um "Boa noite" e então foram dormir.
No meio da noite Luna acordou. A boneca de pano já não estava mais ao seu lado. Ela olhou para fora, deduzindo já ser madrugada. A menina voltou a tentar a dormir, mas antes que ela conseguisse algo chamou sua atenção. De algum canto do quarto, uma risada ecoava. Não uma risada do tipo barulhenta, escândalosa. Mas aquelas do tipo tímida, como de crianças pequenas rindo. Isso não apavorou menos Luna. A garota se cobriu por inteira, e se encolheu na cama. Esperava que sua mãe acordasse com o barulho e desse um jeito nisso, já que ela mesma não conseguia acordar sua mãe. A risada era fria e ao mesmo tempo calorosa. Como se algo - ou alguém - risse de algo engraçado, mas por trás daquele riso havia maldade. Passaram-se algum tempo até Luna acabar sendo vencida pelo sono, e dormiu.
Sua mãe a acordou cedo com um "Bom dia" e um beijo no rosto. A boneca estava ao lado do seu travesseiro.
- Bom dia, mãe. - A menina disse, ainda sonolenta. - Você ouviu o barulho ontem?
Elizabeth a olhou, meio sem entender.
- Que barulho?
- As risadas! - Luna disse, surpresa. Estava com mais medo agora.
- Não ouvi nenhum barulho de risada, filha. Deve ser coisa da sua cabeça.
A mãe de Luna se virou, e foi para o corredor, enquanto a menina a observava saindo. Ela olhou novamente para a boneca, mas logo se levantou e foi para a sala.
O dia passou normalmente. Luna ajudou sua mãe a organizar a casa, e quando chegou a noite, as duas jantaram, e enquanto a menina assistia televisão, sua mãe tomou banho.
- Agora é sua vez, filha. - Elizabeth disse, se referindo ao banho.
Luna concordou e então foi para o banheiro. Lá a garota se despiu e tomou o banho, enquanto cantarolava algumas músicas. Ela saiu do banheiro enrolada na toalha, e foi direto para o quarto, onde se vestiu, colocando um pijama rosa. A menina foi até a sala, pegou sua boneca e voltou para o quarto. Lá ela deitou, colocou o brinquedo ao seu lado e se cobriu, enquanto esperava sua mãe para dormirem. Elizabeth entrou no quarto, e foi até a cama de Luna.
- Boa noite, filha. - A mulher disse depois de beijar a testa da menina.
- Boa noite, mãe. - Luna respondeu, baixinho.
Luna acordou com o mesmo barulho da noite anterior: Risadas. Ela olhou para o lado, buscando a boneca, mas não a encontrou. Ela então olhou para o chão, e também não estava la o brinquedo. As risadas estavam mais fortes e medonhas do que na noite anterior. A garota cobriu a cabeça e começou a chorar. O medo estava devastando o psicológico da menina. As risadas eram intermináveis. A garota gritou pela mãe, que rápidamente acordou e foi até a cama da filha, preocupada. As risadas pararam no mesmo instante.
- De novo as risadas? - Elizabeth perguntou, preocupada.
- Sim. Foi horrível, mãe. - Luna respondeu, enquanto as lágrimas caíam de seus olhos azuis intensos.
As duas decidiram que Luna dormiria com a mãe, e a menina foi para a cama de casal. La a garota finalmente teve paz para dormir.
De manhã, Elizabeth levantou-se e resolveu chamar a menina. A garota estava com a cara afundada no travesseiro, de um jeito que a mãe nunca a viu dormir antes. Elizabeth a chamou, mas nada de resposta. Ela sentou ao lado do corpo da menina, e tocou no braço de Luna, e então um frio na espinha a tomou. O corpo da menina estava frio. Enquanto seus olhos enchiam-se de lágrimas a mulher começou a chamar a filha e sacudir o corpo, mas nada. Ela decidiu então virar Luna, e quando o fez, gritou. Mas não gritou só de tristeza. Foi de medo também. O travesseiro estava ensanguentado, o rosto da garota também. E o mais impressionante é que os olhos da garota haviam sido arrancados. A mulher entrou em desespero absoluto, mas a mulher congelou quando uma risada apavorante começou a ecoar pelo quarto. Ela procurou pelo quarto, e viu quem tanto ria. Na cama de sua filha, uma boneca de pano com sorriso perfeito e olhos azuis intensos ria divertidamente.
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