Inocência


Capítulo dois: Qual o problema de ser solteira?

Dezembro de 2013

Baixei o rosto mais uma vez balançando a cabeça em um sinal negativo e de desaprovação. O som produzido pela a banda da escola estrondava meus ouvidos me deixando quase surda.
O conjunto de instrumentos de sopro e percussão estava em harmonia e alguns alunos, que faziam parte da banda, dançavam em uma coreografia quase impecável. Eu já tinha os vistos em apresentações e com certeza já foram melhores.
Mais eu não estava fazendo aquele gesto para eles, não mesmo. Acredito que as pessoas merecem um desconto, não é todos os dias que elas estão bem. Do outro lado da quadra um garoto do primeiro ano do ensino médio fazia chacota dos alunos dançarinos.
Havia alguns homens na dança e esse garoto os imitava de um jeito muito afeminado, mas na verdade eu só acho que ele queria chamar atenção. Ele era daqueles populares, não como os filmes americanos descrevem. A popularidade no Brasil é bem diferente da demonstrada em filmes.
Duas meninas do oitavo ano estavam ao meu lado. Um era um pouco gordinha, pele branca, cabelos longos e um pouco claros, meio ondulados. Olhos quase tonalizados no verde. Seu rosto era redondo.
A outra era magrinha, pernas finas, cabelos escuros e com uma permanente mal feita. Ela tinha os prendidos em um rabo de cavalo que não ficou muito grande por conta do comprimento. Não era uma garota que chamasse a atenção de garoto algum, em termos americanos, uma invisível.
- Ah ele é tão lindo! – A garota do permanente falou.
- Ele é do primeiro ano. – A amiga respondeu.
Por alguns minutos elas voltaram a prestar atenção na apresentação, enquanto o garoto do outro lado da quadra continuava com suas imitações. Ele estava com alguns amigos, eles riam da palhaçada, mas eram da mesma laia do garoto.
- Acho que eu estou apaixonada.
A garota do permanente disse colocando uma das mãos no peito inclinou o corpo para trás se segurando com a outra mão na grade.
- Ele tem namorada.
- Xiii. Deixa em off.
Não pude evitar repetir o gesto de baixar a cabeça e a balançar de um jeito reprovador. Como somos idiotas no fundamental! Completas abestadas. Não posso dizer que o garoto era feio, mas o jeito dele ser anulava por completo sua beleza.
Suspirei. Ainda bem que já passei dessa fase. Estava feliz por estar concluindo o ensino médio. Terminar os estudos tem seus prós e seus contras. Não sou uma nerd que ama a escola, mas eu achava legal ir todas as manhãs. Ver meus amigos todos os dias, fazer “enxame” quando os professores faltavam...
Terminar o ensino médio significava que tudo aquilo ficaria para trás e uma nova fase começaria uma fase mais adulta. As responsabilidades pesariam mais. E eu tinha medo disso.
Estávamos no mês de dezembro e era o primeiro dia da semana cultural que na verdade só seriam três dias. Estávamos atrasados por conta da greve dos professores de 2011. O meu último ano como um simples estudante acabava no dia dois de janeiro.
Meu pé esquerdo acompanhou o ritmo em que um garoto batia em uma espécie de tambor pendurado em seu pescoço. Duas batidas, cinco segundos de descanso, o som sendo produzido apenas por trompete então mais duas batidas.
Mudei meu peso frequentemente de pé. Desviei minha atenção para o meu celular. Era dez horas e apresentação de faixas e das blusas não tinham começado. Mentalmente dei de ombros. Eu não tinha nada para fazer em casa mesmo. Relaxei vendo os segundos finais da apresentação.
Duas filas foram formadas, uma de dançarinos e a outra com os músicos, a primeira fila a sair foi a dos dançarinos seguida pela a outra.
A nova coordenadora andou a passos largos até o centro da quadra, até antes das férias ela era minha professora de espanhol, aí formos para as férias e quando voltamos a professora de filosofia pediu demissão junto ao seu marido também professor de filosofia, a antiga coordenadora tomou a mesma decisão, junto a mais dois funcionários.
Foi um grande reboliço, minha professora de espanhol se tornou coordenadora pela a manhã e a de inglês pela à tarde.
- Daremos início a XI semana cultural da nossa escola. Começaremos com a apresentação de faixas e apresentação das blusas.
A apresentação não tinha toda aminha atenção, mas algumas coisas insanas como a faixa do segundo ano C a atraiu como um ímã. A frase, escolhida pelo os alunos, era sobre demônios à espreita. Algo como: “Tome cuidado, eles estão por todos os lados. Os demônios nos esperam lá fora”. Todo mundo vaiou, mas eu ri quando a coordenadora disse: “Gente! Pelo menos aplaudam! ”.
Eu estudava de manhã e como um dos terceiros anos era também a última a ver minha sala se apresentando. Sentei nos bancos disponíveis na arquibancada me juntando a uma das minhas amigas, Carolina.
Estávamos separadas dos demais da minha sala, dois pontos laranja no meio de uma grande quantidade de verde, a cor da blusa do segundo ano B.
- Como assim os demônios estão nos esperam? Que sem noção! Alguém deveria descer para dá uns tabefes nesses caras.
- Calma Carol. É só uma faixa. Talvez eles não tenham tido tempo suficiente para fazer algo mais elaborado.
- Serio? Você está defendo eles?
- Não. Só acho que não merecem tabefes por causa de uma faixa ruim.
- Eles são tão irresponsáveis que ao menos foram atrás de fazer a blusa que minha irmã suou para produzir naquele programa super complicado.
- O Corel não é complicado.
- Não questione Luana!
Olhei para as pessoas em volta que fazia muito barulho.
- Olha! O Ezequiel! – Falei.
- Onde? – Ela perguntou claramente animada.
- Ali! – Apontei – Pensei que ele tivesse ido embora.
- Eu também.
Ezequiel estava de pé no final da arquibancada. Ele estava do lado esquerdo com os braços cruzados observando o que se passava na quadra. Eu e Carol estávamos do lado direito da arquibancada que só existia em um dos lados da quadra.
- Se controle amiga. – Disse – Não vá pagar pau assim na frente de todo mundo. Temos que passar uma imagem de madura para as garotas do fundamental.
- Eu não sou madura! Qual é Luana? Eu adoro mingau. Acho que isso me classifica como imatura.
- Qual o problema de gostar de mingau? – Retruquei – Você apenas não deixou alguns costumes.
- Fale mais alto. Acho que ninguém escutou qual é o meu gosto culinário.
Revirei os olhos, Carol era dramática as vezes. Ela deu um pulo ficando de pé e assoprando o apito laranja que tinham dado a ela, gritou:
- AH, AH, AH. TECEIRO A É O MELHOR!
Puxei-a pelo o pulso a obrigando a sentar enquanto quase toda a minha sala entrava com uma faixa de seis metros com uma das frases de uma das músicas do Legião Urbana.
O fato é que cada sala tinha sido sorteada com uma cor e década. A minha ficou com os anos 80 e os alunos mais envolvidos na organização achou melhor homenagear uma banda brasileira. Legião Urbana.
Neste ano, 2013, houve algumas alterações na competição. Haveria dessa vez duas turmas vencedoras, uma do fundamental II e outra do ensino médio. Com certeza ficou mais justo, se o fundamental competisse com o médico nunca venceriam uma S.C.
- Ah, não pense que eu me esqueci. – Carol não olhou para mim ao falar, mas sabia exatamente do que ela estava falando.
- Com quem está falando?
- Não se faça de boba. Sabe muito bem sobre o que estou falando. Hoje é 16 de dezembro.
Revirei os olhos. Admito não ser muito festeira. Ok. Eu não sou festeira. Minha ideia de comemorar aniversários se resumia a pedidos de pizzas e um filme.
- Não quero sair.
- Qual é? Qualquer pessoa em sã consciência gosta de comemorar o seu aniversário.
- Prestou atenção no que acabou de dizer? Acabou de me chamar de louca.
- Que seja. – Ela deu de ombros – Você não vai escapar dessa vez. Dezoito anos não se faz todos os anos.
- Carol! Igualzinho a qualquer idade. Ninguém faz dezesseis duas vezes também.
- Entendeu o que eu quis dizer, sabe disso. – Ela se levantou em um rompante – AH, AH, AH QUEM MANDA AQUI É LADO A; LADO B É INIMIGO.
Revirei os olhos de novo.
- Vamos aquela boate nova que abriu no centro. Esteja pronta as sete.
- Quem mais vai?
- Sua irmã e o grupo.
- Ezequiel vai! Então está explicado o porquê de você está mais animada que eu. Amor platônico é tão argh! Faz-me ter a sensação que ainda não saímos do fundamental.
- Espere só você se apaixonar.
Fiz careta para a ideia. Fazia pouco menos de um mês que eu tinha pegado o garoto que eu tinha dado meu coração me traindo com uma boazona do terceiro da tarde.
Sofri e ainda sofro um pouco quando me lembro mais isso só me serviu de lição para não acreditar em qualquer frase de amor e algumas declarações bobas e como diz a minha banda preferida Soulstripper: “Péssima ideia. Ninguém quer um coração dado”.
Só fiquei me perguntando até onde ele pretendia ir com aquilo. Quanto tempo ele achava que conseguiria enganar duas garotas? O importante agora é que meu coração estava fechado por um tempo e com certeza o próximo garoto teria que fazer muito mais do que dizer frases românticas.
- Você não vai ser gay, não é?
Arregalei os olhos virando a cabeça lentamente em sua direção.
- Como? Perguntou isso a mim?
- Foi. – Ela respondeu em tom natural.
- Claro que não! Aff. Não posso ter um relacionamento ruim?
- Não sei. A maioria das mulheres que têm um relacionamento mal sucedido vira gay.
- Onde viu isso?
- Na TV. – Deu de ombros.
- Não acredite que tudo o que vê na TV.
- E chegamos ao fim do nosso primeiro dia da nossa S.C. – A coordenadora disse ao microfone.
Carol estava se preparando para descer os degraus altos dá arquibancada, pulando-os, quando segurei seu braço. Ela se virou para mim.
- Prometa que não fará nenhum cara vim falar comigo.
Ela bufou e revirou os olhos.
- Tudo bem. Eu prometo.
- Mostre as mãos e prometa de novo.
- Hã? Que desconfiança é essa? Estou me sentindo uma bandida.
- Vamos! Faça logo o que eu lhe pedi.
Carol ergueu as mãos.
- Eu prometo.
- Agora vá! Antes que Ezequiel vá embora.
- Ok.
Observei enquanto Carol pulava os degraus altos, pois não teve paciência de caminhar até a escada. Suspirei imaginando quando o idiota do Ezequiel perceberia que Carol estava caidinha por ele.
Diferente da minha amiga. Caminhei até a escada que ficava do lado direito da arquibancada. Devagar a desci logo me unindo aos demais alunos que se espremiam para sair da quadra.
Algo me dizia que a noite do meu aniversário seria muito mais agitada do que eu imaginava.
[...]
Joguei minha chave em cima da bancada que ficava na entrada do apartamento. Limpei as mãos suadas na calça jeans e joguei minha mochila no chão.
- Cassi! Cheguei.
Joguei-me no sofá e esperei Cassiana chegar para brigar comigo por deixar tudo jogado pelo o chão.
- Finalmente! Pensei que tinha sido sequestrada.
- Não fala essas coisas!
Reprimi a lembrança da morte da mamãe.
- Boas notícias, não vai precisar ir hoje para a sua sessão de terapia.
- Serio? – Fingi está surpresa – Deixe-me adivinhar! Boate, festa de aniversário, Luana...
- Qual das suas amigas te contou?
- Carol.
- Ela sempre foi a mais túmulo violado de todas.
- Não fale assim dela na minha frente.
- Que seja. – Ela deu de ombros – Ah quase ia me esquecendo. Nicholas pediu para você passar no estúdio do papai.
- O que ele quer comigo?
Cassiana ergueu as sobrancelhas e cruzou os braços.
- Até parece que não sabe.
- Aff. – Levantei para ligar a TV – Já deixei bem claro que somos só amigos.
- Qual é Luana? O cara é mais velho com certeza tem mais cabeça do que esses pivetes com quem sai.
Peguei o controle remoto e ponderei o que era verdade naquilo.
- Mesmo assim não estou pronta para um novo relacionamento agora e ele é cinco anos mais velho.
- HÁ! Estou vendo que sua mente ainda está no fundamental. – Começou a caminhar para a cozinha – Ah e quem falou em relacionamento sério? Dá só uns beijos nele. O Nick não é de se jogar fora.
- Esse é o conselho que dá para a irmã mais nova? – Falei um pouco mais alto para que ela escutasse.
- Você é que sabe!
Virei ficando de frente para a TV, afundei a cabeça em uma das almofadas. Prevendo que minha querida irmã não sossegaria enquanto não me pegasse aos beijos com o Nick.
Qual o problema de ser solteira?!



Há mais sombras lá fora do que você pode imaginar.
meenaswan@gmail.com

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