Inocência

Capítulo três: Acontecimentos estranhos para uma noite de aniversário
Era três horas da tarde e Cassiana não parava de passear em frente ao meu quarto e eu sabia exatamente o que ela queria. Xinguei-me mentalmente por ter decidido não ter porta no meu quarto.
Meu pai não estava em casa, ele viajava muito. Não sei bem o que ele fazia mais quase sempre estava em lugares desconhecido. Desde que minha mãe morreu, ele não para mais em casa alegando está me protegendo.
Eu já tinha cansado de perguntar o que os dois escondiam de mim, porque nunca consegui esquecer o que minha mãe me disse antes de morrer.
... saiba que eu e seu pai tentamos te proteger de todas as formas...
Nunca consegui descobrir o que ela quis dizer com isso já que o único que podia me dá explicações era meu pai e ele se recusou a falar sobre o assunto. Obviamente no início, fiz birra e qualquer coisa que pudesse fazê-lo se abrir comigo, afinal, ele tinha um segredo sobre mim, um tão grande e grave que custou a vida de uma pessoa. Minha mãe.
Do que ele me protegia? Por Deus! Era tão difícil assim me manter a par da situação? Contar a verdade? Talvez... talvez haja algo em mim... algo errado... não sei o que isso pode significar, entretanto, lembro-me claramente que me chamaram de receptáculo. O que isso podia significar? Não sei nem ao menos o significado dessa palavra.
- Ok. O que eu preciso fazer para você levantar essa bunda da cama e ir até o estúdio de fotografias?
Meu olhar, que não estava fixado na tela brilhante a minha frente, ergueu-se para encarar Cassi para logo voltar a fitar a tele do notebook. Suspirei.
- Eu não vou lá. Mesmo que eu cogite a ideia de tentar algo com Nick acho cedo demais. O que ele vai pensar de mim? Mal saí de um relacionamento.
- Acontece que no seu caso é diferente. O garoto era um canalha, não tem problema se arranjar outro para ficar no lugar dele.
- Não sei não...
- Vamos! Fique glamorosa e vá ver o bofe. Quer passar o resto da vida sozinha?
- Não!
- Então por que perder a chance com Nick? Ele não vai esperar para sempre. Pense pelo o lado bom, Nick é inteligente, tem um emprego fixo, uma vida independente e principalmente: é bonito.
- Não vai sossegar enquanto não me ver passando pela aquela porta, não é mesmo?
- Me conhece tão bem.
Observei-a por alguns segundos.
- Tudo bem. Eu vou, mas não estou dizendo que é o início de um relacionamento.
- Ah! Finalmente. Agora já posso morrer em paz. Com a sensação de dever cumprido. Vou deixar você sozinha para que possa se arrumar.
Cassiana falava enquanto eu levantava, atirei um travesseiro. Minha mira geralmente é ruim mais fiquei feliz quando o objeto fofo e macio acertou em cheio o meio de sua cabeça. Gargalhei.
- Gostei dessa. Nunca me senti tão realizada na vida.
- Que engraçadinha, mas nada pode mudar meu humor. Nem esse ato de vandalismo contra a pessoa que cuida de você. Vá se arrumar e fique linda.
- Como se eu precisasse.
Cassiana ergueu as sobrancelhas e desejei com todas as minhas forças que houvesse uma porta para que eu pudesse fechá-la na cara da minha irmã.
Uma hora depois estava com a respiração entrecortada e precisei respirar fundo mais uma vez para ter coragem de abrir a porta do estúdio do meu pai. Preparando-me psicologicamente para as cantadas de Nick.
- Olá!
Sorri ao entrar. Nick estava com a cabeça apoiada em uma das mãos com uma expressão tediosa no rosto.
- Oi! – Ele levantou o rosto imediatamente – Pensei que não viesse mais. Cassi te deu o recado agora?
- Não. Recebi o recado cedo eu que estava com preguiça de vim.
Vi o sorriso em seu rosto sumir gradativamente como algo que morre aos poucos.
- Ela te obrigou a vim, não foi?
- Mais ou menos. – Tive pena de contar a verdade. Definitivamente eu não queria estar ali – Bem, estou aqui.  O que aconteceu?
- Me conte você.
Sorri torto, um sorriso meio que forçado e que não mostrava meus dentes. Sentei no sofá preto de couro que servia para o conforto dos clientes enquanto esperava as fotografias serem reveladas ou quando os acompanhantes dos clientes os esperavam.
- Ficou sabendo que eu e Paulo terminamos.
- Sinto muito. Ele nunca foi peça boa.
- Tem certeza que senti muito?
- Só pelo o fato de ter sido traída, mas admito que estou feliz por você está livre e desimpedida.
- Mais não disponível.
- Claro. Entendo que precise de um tempo para se recuperar. Estou disposto a esperar o tempo necessário.
- Serio? Então me diz o porquê de insistir tanto que algo entre nós aconteça? Não é segredo que pode ter qualquer garota.
- Isso não é verdade. Há tempos venho tentando algo com você.
- Então sou apenas um capricho? Alguém que você precisa pegar?
- Não! Claro que não! Gosto de você, por que é tão difícil acreditar?
- Sim! Claro que é! Nick você é mais velho e eu? Praticamente um bebê.
- Um bebê? Tem certeza que vai usar essa palavra?
Revirei os olhos.
- Você me entendeu. – Semicerrei os olhos – Então, por que você gosta de mim?
Soltei um risinho tendo a certeza que tinha o pegado, tinha certeza que ele não saberia o que dizer.
- Eu sei que sou mais velho, mas não é como se eu parecesse seu avô – mesmo que tudo o que sou me advertisse que aquele era um momento crucial para um não início de relacionamento não consegui impedir o risinho – Somos amigos há quantos anos? Três? Nem me lembro mais. E em toda minha vida nunca encontrei uma garota forte como você. O modo como enfrentou as situações da sua vida provou que não é como as outras. Forte, determinada e independente quando necessário e isso com certeza me atrai.
Ele se calou me deixando com a boca parcialmente aberta, meu olhar com certeza expressava minha surpresa, definitivamente não estava esperando ouvir aquilo. Balancei minha cabeça me obrigando a desligar aquele sentimento de compatibilidade.
Levantei-me e a passos lentos me aproximei dele. Nick parecia esperançoso e apreensivo.
- Ok. Isso foi muito fofo. – Repousei minhas mãos no balcão – Mas eu prometi a mim mesma que não sairia com alguém só porque ele me diz palavras bonitas.
- É impressionante como você acaba com minhas esperanças em segundos.
- Desculpe. Sinto muito.
Ele se limitou a um sorriso e então me lembrei de todo o meu dia. Tudo o que minha irmã e Carol disseram voltou rápido demais.
- Hoje é seu aniversário, não é mesmo?
- Sim. – Sorri um pouco hesitante – Fizeram planos para comemorar esse dia, claro que foi sem o meu consentimento, mas querendo ou não tenho que ir.
- Por que está me contando?
- Não é um início de um relacionamento, não entenda mal. Eu quero que você vá. Se eu for acompanhada, principalmente se for com você, elas não terão chance de me jogarem para cima de alguém.
Um sorriso imediatamente se estalou nos lábios do garoto, claramente esperançoso.
- Eu aceito seu convite.
- Elas querem está nesse endereço as sete.
Anotei-o em um bloco de papel perto do computador.
- Chego a sua casa as seis e meia.
- Não vou estar pronta seis e meia. – Avisei.
- Sei disso. – Ele sorriu malicioso.
- O que está tramando?
- Acha que eu vou te contar? Chego a sua casa as seis e meia. – Ele sorriu torto – Agora tenho que voltar ao trabalho.
Segui seu olhar dando de cara com uma mulher de uns vinte anos, ela sorria. Retribui o sorriso mais tendo a certeza de que ele não passou de uma careta.
Sai do estúdio pensando no que faria o resto da tarde, a ideia que surgiu em minha mente me agradou muito, fez com que um sorriso tomasse meus lábios.
A maior parte do tempo a cidade de Fortaleza é quente e existem dias que sinto tanto calor que meu desejo é passar o dia debaixo de um chuveiro. Cobri minha vista observando o outro lado da rua.
Passava quinze minutos das cinco e então soube que a ideia maravilhosa de dormir o resto da tarde não poderia ser executada. Suspirei frustrada. Estava meio desanimada porque teria que passar pelo menos duas longas horas da minha noite do meu aniversário em um lugar que eu não gosto.
Com uma careta de desgosto caminhei em direção a minha casa pedindo a Deus para que Cassiana não estivesse em casa.
Rodei a trinca fazendo uma careta quando um barulho se propagou. Xinguei baixinho a porta que botou em risco minha fuga do interrogatório de Cassi.
Minha respiração pesada parou por alguns instantes quando vi a figura imóvel de Cassi sentada no sofá.
- Então como foi? – Ela perguntou claramente animada.
- O convidei para minha festa. – Fiz aspas com meus dedos.
- Só isso?
Revirei os olhos.
- Você não tem trabalho?
- Tenho direito a uma folga.
Levantei as sobrancelhas.
- Devia folgar também de tomar conta da minha vida amorosa.
- Dramática. – Cassi retrucou.
Caminhei até a cozinha e enchi um copo com a água mais gelada que achei.
- Você é assistente social, certo?
- Sim. – Ela respondeu apreensiva.
- Não existem algumas crianças ou adolescentes que estejam precisando dos seus serviços?
- Existem outros assistentes sociais.
- Mais não é você que decide para onde eles vão?
- Deixei pessoas responsáveis na minha ausência.
- Vou tirar um cochilo. – Murmurei.
- Não durma demais, não vai querer ir para a boate com o rosto amassado.
- Nunca nem imaginei que um rosto poderia ser amassado.
Derramei o resto da água e caminhei a passos largos para o meu quarto.
[...]
- Acorda dorminhoca! Eu disse que não dormisse demais.
Cassiana puxou a minha coberta e ligou a luz forte. Gemi e virei de lado.
- Cassi! Eu não quero ir. Detesto boates.
- Devia ter pensado nisso antes de ter convidado Nick.
Como se fizesse diferença. Você me arrastaria para essa boate com ou sem Nick.
Ela puxou a minha perna direita, agarrei-me a grade da cabeceira da minha cama, sempre foi a mesma coisa, mas até hoje quando isso acontece tenho a sensação de que minha perna desgrudaria do meu corpo.
- Ok. Pode parar de tentar arrancar minha perna?
- Posso se você se levantar. Já são quinze para as seis.
Abri meus olhos no embalo do susto e soltei a grade que segurava. Cassiana caiu por conta da força que me puxava e meu corpo foi arrastado até metade da cama.
A madeira raspou com força minha coxa e eu gritei de dor. Virei meu busto para cima e ergui o tronco me certificando do vermelhão em minha pele.
- Poderia ter me avisado que ia soltar a grade. – Cassi reclamou enquanto massageava o bumbum.
- Você disse quinze para seis?
- Sim.
- Oh meu Deus. Nick disse que estaria aqui as seis e meia.
- Estou ansiosa para quando ele chegar.
Mostrei a língua antes e fechar a porta do banheiro. Dentro do cubinho tratei de tirar minha roupa, foi rápido, pois estava com um shortinho e uma blusa de um pijama qualquer.
Esperei dois minutos antes de ir para baixo do chuveiro. Doze minutos depois estava de banho tomado. O banho mais rápido que já tive na vida. Tirei duas vezes consecutivas o excesso de água. Enrolei a toalha em meu corpo.
Vários caminhos de água partiam dos meus cabelos presos no topo da minha cabeça. O cheiro do meu sabonete invadiu o quarto, uma fragrância boa. Sai do banheiro deixando um rastro de pegadas na cerâmica branca.
Sendo o mais rápido que podia, vesti minhas roupas intimas uma cinta modeladora e o vestido que Cassi me deu há dias. Ele ficou quatro dedos acima dos meus joelhos então decidi que seria bom usar um short.
O tecido do vestido era fino e com certeza qualquer ventinho o levantaria. Tirei o par de sapatos azul, o salto grosso e um pouco grande. Fiquei em pé em frente ao espelho certa da impressão de que o vestido parecia menor.
- Que droga!
Virei a cabeça bruscamente em direção a Cassi que estava parada em frente à entrada do meu quarto.
- O que foi? Está feio? – Perguntei assustada.
- A roupa está linda. Mas eu me esqueci de falar que não molhasse o cabelo.
- Ufa! Pensei que tinha ficado feio.
- E ficou! Seu cabelo estragou tudo.
- Senhora do drama. Eu posso fazer um rabo de cavalo de franja. Fica lindo.
- Nada se compara a um cabelo solto, fica sedutor e sexy.
- Acontece que eu não quero estar sedutora e sexy. Vou sair com o Nick e não quero que ele entenda essa noite mal.
Cassi abriu a boca em sinal de indignação. Balançou as mãos no ar e disse:
- Faça o que quiser. Eu não me meterei mais nisso.
- Ótimo! – Gritei, para que ela pudesse ouvir.
Encarei meu reflexo e sorri para mim mesma. Eu iria fazer a melhor produção já vista e meu cabelo estaria molhado. O sorriso se alargou.
Vamos começar com isso.
[...]
Um passo de cada vez.
Obriguei meu cérebro a repetir isso inúmeras vezes. Não podia esquecer nem por um instante o fato de estar em cima de saltos e não dos meus confortáveis tênis, sapatilha, rasteira... ou qualquer coisa que não tivesse saltos.
Um a um viraram a cabeça em minha direção. Prontamente Cassi abriu um largo sorriso, surpreendida.
- Vamos?
Nick se pronunciou próximo a porta. O apartamento em que vivia não era um dos maiores que existiam. Podiam-se viver quatro pessoas no máximo e logo só seríamos eu e papai. Cassiana estava noiva e casaria em dias.
Estava assustada, com medo de perder minha irmã para a nova vida que ele tanto desejava, mas sabia que era inevitável, um dia ela teria que começar a sua própria família.
Reprimi as lágrimas que insistiam em descer cada vez que me lembrava do que estava por vir. Passei meu braço esquerdo no arco que Nick fazia com um dos braços.
Algum tempo depois tínhamos chegado a boate, meu coração acelerou quando meus pés trabalhavam para me aproximar do interior do lugar, deu tudo certo, entrei sem ser barrada ou algo do tipo. É impressionante como uma carteira de identidade que comprove que tem dezoito anos abre portas que jamais se abriram antes.
Lá dentro as luzes piscavam constantemente, impediam que visse algo de forma clara, por um impulso deixei minha mão deslizar até a mão quente de Nick, meus dedos se entrelaçaram aos dele.
Nick virou o rosto de lado me olhando disfarçado e sorriu, ignorei o que vi. Estava com um pequeno temor de me perder em meio a tanta gente. Ele me guiou até a pista de dança e tentou me fazer dançar, mas eu não sei dançar bem. Nunca treinei e não sou boa. Nick me puxou contra seu corpo ao ritmo de um dos remix de David Guetta. Eu não estava preparada e ao colocar o pé no chão pisei com força em seu pé.
- Ai, ai, ai.
Nick começou a pular de um pé só, o pé machucado estava erguido.
- Desculpe. Eu não sei dançar.
Cai na gargalhada, mas não antes de cobrir a boca com as mãos.
- Vou pegar bebidas para nós. Talvez assim dance melhor.
Ri alto.
- Duvido. – Segurei seu pulso – Eu não posso beber.
- Claro que pode Luana. Tem 18 anos.
Observei-o se perder em meio às pessoas, fiquei lutando contra o sentimento de hesitação. Eu era tão certinha. Nunca fazia nada errado. Talvez precisasse me libertar um pouco. Sempre em casa, estudando, tirando boas notas... uma adolescente careta demais. Talvez tenha sido por isso que Paulo me atraiu.
Duas horas depois eu não tinha mais certeza da quantidade de álcool ingerido, nem me lembrava em qual dose tinha ficado tão bêbeda. Nunca bebi nada alcoólico e acho que isso é um fato importante.
Bebi mais uma dose do liquido que Nick me trouxe. Ele passou por minha garganta queimando, mas a essa altura não fazia mais diferença. Estava tão bêbada que não conseguia parar de rir. Tudo parecia tão engraçado. A gravata borboleta de um homem estava torta.
- Acho que tem alguma coisa aqui.
Nick apontou para minha boca e colocou seu indicador nele. Estava dopada demais para esboçar alguma reação quando ele se aproximou, também muito bêbedo, e me beijou. Também não me dei o trabalho de recuar ou o fazer parar com aquilo. Tudo estava tão mais colorido e divertido que não vi problema em corresponder ao beijo.
Assim que nossos lábios se separaram caímos de novo na interminável gargalhada. Ataques estes que não foram poucos e foi em um meio a um ataque de riso que senti algo vibrar dentro do meu sutiã.
- Woo, acho que tem algo aqui. – Puxei a coisa brilhante que agrediu meus olhos, apertei o olhar – Papai?
- Quem?
Nick parou com o sacolejo estranho com o corpo.
- Meu pai está ligando. Dei-me só um minuto.
- Ok.
Sai cambaleando meio tonta, dando passos nem um pouco firmes. Estava completamente descabelada e não sabia disso. Não tinha controle sobre minhas ações e acabei dando beijos bem quentes em Nick. Sim! Não foi apenas um. Foram vários. É nisso que dá quando você bebe demais, faz coisas que não deveria fazer porque sua consciência foi para os ares.
Ainda sentia a sensação do último beijo. Nick tinha pegada e me tirava o fôlego entre os beijos, o que estranhamente me fez gostar. Suas mãos tinham deixado rastros quentes em algumas partes do meu corpo.
Eu sabia que iria me sentir culpada depois e estaria sentindo a culpa naquele mesmo instante se não estivesse tão bêbada. Sim. Eu achava Nicholas bonito, inteligente, fofo, educado... mais era como se algo dentro de mim rejeitasse todos os caras que se interessavam por mim. Como se houvesse em meu coração um alarme que soaria no momento em que visse o cara certo.
Sei que soa antiquando e clichê mais era exatamente assim que me sentia e já tinha errado uma vez ignorando o fato desse alarme não ter soado quando comecei a namorar Paulo e eu não pretendia errar novamente com Nick.
Eu gostava da companhia dele e tal, mas não conseguia me imaginar namorando ele.
Finalmente cheguei do lado de fora, não sentia a dor que causaram ao pisarem várias vezes em meus pés, o efeito do álcool meio que anestesiou isso, talvez por isso que Nick ficou bêbado antes de querer dançar de novo.
- Alô? Papai?
- Luana, minha querida, feliz aniversário. Desculpe, não deu tempo voltar a tempo aconteceu alguns imprevistos.
- Ok. Eu entendo e não vou perguntar onde e nem o que está fazendo.
- Obrigado.
- Fazer o quê? Há anos pergunto a mesma coisa e nunca me responde nada, desisti.
- Talvez um dia você saiba, mas meu desejo que é nunca descubra nada. – Ele suspirou – Eu amo você. Divirta-se em seu aniversário mesmo que eu não esteja aí com você.
- Farei o possível.
- Tenho que desligar agora. Boa noite querida.
- Boa noite pai.
Suspirei a ouvir o som avisando que a ligação acabou. Realmente era verdade que eu tinha desistido de saber algo sobre os segredos do meu pai, todavia, isso não significava que não me incomodava que me escondesse tanto.
Guardei meu celular no sutiã, dei o primeiro passo em direção a boate e um som extremamente familiar chegou até mim. Virei na direção do som, varrendo o céu escuro com meus olhos prejudicados pelo o álcool.
Instantes depois um estrondo sucedeu, mas dessa vez junto a um grito intenso. Meu coração acelerou com a ideia de que o dia em que minha mãe morreu estivesse se repetindo.
O mesmo som de um corpo caindo seguido pelo o estrondo dele se chocando no chão fez a lembrança dos corpos dos homens, aparentemente caindo do céu, voltar a minha mente.
Pisquei algumas vezes focando no possível corpo que instantes atrás não estava ali. Ao me aproximar ouvi seus gemidos e realmente vi que era um homem. Vivo.
- Oh meu Deus!
Apressei os passos passando a correr não me importando se cairia por estar bêbeda. Felizmente eu não caí. Abaixei-me ficando de joelhos e consequentemente mais próxima do rapaz. O virei de frente para mim. Ele tossiu, estava ferido no rosto, suas mãos seguravam o peito.
- Você está bem?
O rapaz balançou a cabeça em um sim silencioso. Ele parecia assustado, muito assustado. Diante aquela circunstância descartei a hipótese dele ter caído em queda livre de algum lugar se tivesse feito isso com certeza estaria morto, igual aos dois homens que mataram minha mãe.
- Como é seu nome?
Seu rosto se suavizou um pouco, os olhos me fitaram profundamente fazendo com que o tal alarme no meu coração disparasse.

- Michael.

Nossa vida é como as águas de um rio. Está sempre em movimento.
Meena Swan

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