"Não me toque! Ou vai se arrepender!"

Quando completei 32 anos, fazia 2 anos que me formara em medicina. Só então me julgaram suficientemente qualificada para liderar um procedimento cirúrgico. O paciente era um cidadão que caíra de um desfiladeiro e por milagre ainda estava vivo.
Chegando à sala de cirurgia, eu, a cirurgiã principal, tive medo ao olhar o paciente. Aquele homem se parecia com um vilão de histórias em quadrinhos! "Poxa pra que mesmo que eu quis ser médica?" -pensei.
A cirurgia foi um suscesso . Mas no dia seguinte tive um pesadelo horrível com aquele homem. No meu sonho ele matava de forma horripilante, todos que tocassem seu corpo. Depois ele fazia um assado da pessoa e a comia todinha. Só deixava as orelhas que conservava em potes.

Quando acordei, fiquei com medo. Aliás fiquei com muito medo. Já pensou se aquilo que eu sonhei fosse verdade? E se fosse eu iria morrer, afinal eu toquei no corpo dele, na hora da cirurgia!!!! Sacudi a cabeça e pensei " Estou botando 'minhoquinhas' na cabeça"
Todavia, no dia seguinte, fiquei sabendo que o enfermeiro-chefe da tal cirurgia desaparecera de forma misteriosa. Fiquei desesperada. Pensei com meus botões: "Isso só pode ser brincadeira, uma grande brincadeira. Ou será que....? "- não consegui concluir aquele pensamento.
Naquela noite não consegui dormir direito. Tive pesadelos a noite toda.
Na manhã seguinte, eu estava andando tranquilamente na pracinha quando o vi. Ele estava me olhando de longe. Após alguns minutos ele veio andando em minha direção. Quando estava a menos de dois metros de distância, ele me encarou por alguns instantes e foi embora.
Depois do tremendo susto ( que me fez ficar paralisada) eu corri. Corri até chegar ao meu apartamento. Escancarei a porta, entrei e me tranquei. Tomei um copo d'água com açúcar e procurei me acalmar.
De repente senti um vento frio levantar meus cabelos. Um vento sem origem. O apartamento ficou gelado e num instante, os espelhos se embaçaram. Fui ao meu quarto e no espelho do banheiro estava escrito: "Você não tem salvação!"
Fora de mim, tremendo de medo, peguei o celular. Ele estava descarregado. Peguei o telefone da sala , mas ele estava mudo. Corri para a recepção do prédio e pedi para usar o telefone. "Graças a Deus está funcionando." -pensei. Liguei para a polícia e disse que estava sendo ameaçada de morte. Disseram-me que nada poderiam fazer ,pois o delegado fora assassinado havia poucos minutos.
Desliguei desesperada. De um estalo, lembrei que o delegado participara do salvamento daquele homem que estivera me ameaçando. Ele havia TOCADO no indivíduo.
-Meu Deus!! Então é verdade!!!
Foi o tempo de eu subir pra casa e cair desmaiada no sofá.
Quando acordei e fui me levantar, percebi que estava amarrada. Tentei gritar mas estava amordaçada. Só então percebi que estava presa em uma árvore no meio da mata. Ao meu redor estavam espalhados ossos humanos e potes com orelhas em conserva.
Passei a noite titirando de frio e tentando me soltar. Sem sucesso. Na manhã seguinte, ele apareceu. Disse:
-Pode começar a rezar.
-Primeiro me solta.
-Por que eu faria isso?
-Faça como se fosse o último pedido de uma moribunda.
-Tudo bem.
E me soltou. Foi me sentir livre e desandar a correr. Ele gritou me avisando:
-Pode fugir. Mas fique sabendo que não há salvação. Vou te achar de qualquer maneira.
Continuei correndo e para minha surpresa, ele me deixou escapar. Quando saí de lá, no entanto, percebi que aquele indivíduo não desistiria assim tão fácil. Resolvi me prevenir.
Tão logo cheguei em casa, saí para comprar uma arma. No mercado negro elas são fartas. E o melhor: a preço de banana.
Um dia, porém, fui pega de surpresa no parque da cidade. O cara que me atormentava, apareceu bem na hora que estava desarmada. Quando caí em mim, estava naquele lugar de novo. Amarrada e amordaçada. Esperneei, tentei gritar, mas nada adiantou. "Começou tudo de novo"- pensei- " Daqui a pouco ele aparece e desta vez não haverá salvação"
Dito e feito. Ele apareceu com um punhal na mão e disse:
- Agora você não me escapa!
Tirou a minha mordaça e se preparou para golpear. Gritei:
- Não!! Misericórdia!! Me deixe rezar primeiro!
- Depressa!!! - ele ordenou.
Rezei e implorei para Deus me livrar da morte. De nada adiantou. Tão logo acabei de rezar, senti uma dor insuportável. Ele havia arrancado minhas orelhas. Em seguida, ele afundou a faca em meu peito, aumentando minha dor . Ainda viva fui lavada para o outro lado e...
...
-Doutora!! Acorde!! Doutora!!!
-O quê? O que aconteceu?
-A senhora desmaiou quando viu o paciente! Tudo bem, eu sei que ele é horroroso! Mas não se preocupe! É medo de iniciante!
Meu Deus! Eu não estava acreditando! Eu estava viva e tudo aquilo fora um pesadelo causado pelo desmaio!!!
Novamente dirigi-me para a sala de cirurgia, com o ânimo renovado.
Todavia , quando preparava os materiais para começar o procedimento, senti um olhar funesto vindo do indivíduo estirado naquela cama...

Luciene Oliveira

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